quinta-feira, 23 de maio de 2019

JOSÉ AUGUSTO DE OLIVEIRA: O PRÍNCIPE DOS ESCRITORES BRASILEIROS 2

JOSÉ AUGUSTO DE OLIVEIRA: O PRÍNCIPE DOS ESCRITORES BRASILEIROS 2

É muito material pra uma só postagem,então,eu fui obrigado a dividir, continuando na parte dos contos:

Contos






















...DÁ TEMPO

            No ano de 1952, encontrei-me em Fortaleza com um colega de turma, que na Escola de Aprendizes Marinheiros tinha o apelido de “Almofadinha” por só se preocupar com as aparências. Servia ele então na Capitania dos Portos do Estado do Ceará
            Sabia também que, andou de saias e não sendo padre ou escocês, ele dava encima, pois se julgava irresistível, como costumava afirmar.
            Foi ele próprio quem me contou que naquele ano havia passado suas férias regulamentares não em sua cidade natal, mas em outra vizinha, a convite de um seu amigo estudante de medicina em Fortaleza.
            Como é sabido, nas cidades do interior é fato comum à noite o pessoal passear pela praça principal, conhecida como avenida, em muitas havendo até banda de música aos domingos, para tocar no correto do jardim entre 20:00 e 22:00 horas.
            No domingo seguinte à sua chegada foi ele passear na praça, ou avenida, como queiram,  e ali no jardim da prefeitura conheceu uma senhora casada com a qual logo se relacionou e passaram a se encontrar quase que diariamente.
            E durante toda a sua estada ali naquela cidade o seu passatempo à noite era a praça, principalmente para o já costumeiro papo com aquela jovem senhora de apenas 22 anos, que mesmo alegando seu estado civil, contudo não adiantou quem era seu marido, acrescentando apenas que ele trabalhava no comércio, conseqüentemente ocupado diariamente até às 21:00 horas.
            Quando faltava apenas dois dias para ele voltar a Fortaleza, findas as férias, depois de um pequeno estágio como namorado, havia de exigir alguma recompensa de sua namorada.
            O certo é que na véspera do dia de seu regresso, logo pela manhã, por volta das 08:00 horas entrou ele em uma das barbearias, onde já havia um freguês na cadeira e outro aguardando a vez.  Contudo, achou por bem perguntar quantos fregueses além daqueles aguardavam a vez, informando-lhe o barbeiro que naquele momento somente os dois.
            - Ainda é muito cedo: vou dar um giro pela praça e volto depois.
            - Como o senhor desejar, sargento, respondeu-lhe o barbeiro.
            Às nove horas estava ele de volta à barbearia, onde já se encontrava um número bem maior que antes, estando um na cadeira e três aguardando a vez de serem atendidos.  Mesmo assim resolveu perguntar, pois alguém poderia estar ali apenas fazendo hora e não para ser atendido pelo profissional.
            Foi quando o barbeiro lhe respondeu: agora tem quatro...
            - Obrigado, respondeu o sargento “Almofadinha”, acrescentando: “vou fazer algumas compras pelas imediações e voltarei em seguida.
            Lá para as onze horas voltava ele à barbearia sem conduzir qualquer volume e fazendo a pergunta de sempre, mesmo vendo o salão cheio, e até com gente em pé.
            - Barbeiro, quantos tem agora!  Respondeu-lhe o barbeiro: “agora já têm seis e quando terminar o atendimento aos que já estão aqui vou almoçar e só estarei de volta amanhã, às 08:00 horas
            - Muito obrigado... Dá tempo... foi o que falou instintivamente o sargento “Almofadinha”.
            - Este sargento parece não ser bom da bola, comentou o barbeiro com os fregueses, um dos quais amigo da família onde o sargento estava hospedado, mas que nada comentou.
            - Vejam os senhores!  Este sargento chegou aqui pela manhã e estando presentes dois fregueses perguntou quantos haviam.  Saiu e por volta das 10:00 horas voltava e entrando na barbearia faz a mesma pergunta e dou-lhe a resposta que então haviam quatro.  Outra vez ele sai dizendo que ia fazer compras e agora volta e faz a mesma pergunta, como se não soubesse contar... ou julgando haver algum freguês colocado, mas que ausentara-se por instantes, foi o que deve ter pensado o barbeiro.
            Mesmo julgando que o estranho militar fosse desequilibrado mental, pediu ao garoto que seria o ultimo a ser atendido antes do seu almoço, para que acompanhasse aquele sujeito estranho e observasse seus modos, e se possível verificasse onde ele estava hospedado, pois até podia ser um impostor se qualificando como militar.
            Como o garoto  seria o último a ser atendido e já com a vaga garantida, depois de acompanhar o sargento até a casa onde ele entrou, na volta, em um campo de  pelada bem  próximo da barbearia resolveu entrar no jogo para completar um dos times, indo antes à barbearia avisar que estava ali aguardando sua vez.
            E lá pelas 13:00 horas o barbeiro chamava o garoto para cortar o cabelo, e sequer lembrava que o mandara seguir o estranho sargento.  Porém, quando lembrou, perguntou inocentemente ao garoto: - “você acompanhou e viu onde o sargento entrou ou está hospedado?
            - Puxa,  seu Argemiro, até já havia me esquecido!...  O cara entrou na sua casa!
            O barbeiro nem terminou o corte do cabelo do garoto e se mandou para a sua casa, onde tudo estava normal... pois ainda sobrou tempo para o esperto sargento ludibriar o verdadeiro idiota, que nenhuma prova haveria de ter contra a sua esposa e nem contra o sargento.
            É que a mulher havia dado todo o serviço ao sargento, inclusive que naquele dia, como de hábito, seu marido só trabalhava no primeiro expediente; e quando voltasse para almoçar já teria atendido a todos os fregueses.
            Talvez houvesse justificativa para a aventura da mulher com o sargento que visitava aquela cidade pela primeira... e última vez.
            A diferença de idade do marido para a sua mulher era de... apenas... 45 anos, sendo o barbeiro viciado em bebida alcoólica, e diariamente, excetuando as quartas-feiras, ao deixar o trabalho ia para os bares se entregar à bebedeira, só chegando em casa por volta da meia-noite.
            Sua própria mulher acrescentara ao sargento que apesar de seu marido ser inveterado alcoólatra, não deixava de trabalhar diariamente e jamais um freguês ficava sem atendimento, mesmo no dia em que trabalhava meio expediente, pois era considerado o profissional mais competente e o mais procurado da cidade...  E como!!!
 José Augusto de Oliveira

FELIZ NATAL PARA VOCÊ!...

            O dia pouco a pouco ia morrendo, cedendo lugar a uma noite deslumbrante, quando no céu um formoso exército de estrelas parece brilhar com mais fulgor, como se anunciassem a feliz noite de Natal.
            A Lua ainda mais prateada parecia derramar por toda a Natureza um brilho invulgar, como se essa noite fora aquela mesma em que nasceu Jesus.
            E tudo parecia ser alegria.  Nos templos, os sinos repicam anunciando a grande data, enquanto os fiéis dirigem preces ao Salvador, numa última esperança de que a felicidade nessa noite se descortine como a estrela que no céu apareceu para guiar com segurança os reis magos.
            Nos semblantes das criancinhas o sorriso bem traduz a expectativa dos presentes de Natal que o bondoso Papai Noel irá trazer.
            E ninguém melhor que esses pequenos seres inocentes para representarem os sagrados mistérios do nascimento de Jesus, pois na verdade somente tristezas e lágrimas testemunharam o nascimento daquele que mais tarde haveria de morrer na cruz para nos salvar.
            Não é diferente  a alegria dos lares menos favorecidos.  A felicidade é igual, como iguais são os sentimentos que nesse dia irmanam a Humanidade.
            É nesse venturoso dia que o Sol parece mais cedo chegar ao ocaso para ceder lugar à noite para que as estrelas resplandeçam com mais intensidade aureolando não mais o berço do pequeno Jesus, mas o Trono de DEUS.
            Todos, nesse dia, seja o ímpio, o avaro, o afortunado, o infeliz, o encarcerado... têm a mesma expressão de sentimento e, a uma voz, repetem a frase milenar cheia de esperança: FELIZ NATAL! evocativo dos almejos mais sensíveis e humanos.
            FELIZ NATAL!!!
            Também direi eu, indistintamente, Feliz Natal para você, infeliz presidiário, que entre as grades do cárcere há de sentir o ardente desejo de liberdade e pedirá perdão a DEUS para seus atos impensados; e pelas grades de sua prisão sentirá a luz da verdade invadir seu coração, dando-lhe novo alento para seu infortúnio.
            Feliz Natal para você, paciente enfermo, que nada mais espera no leito de dor e na tortura dos taciturnos hospitais, senão a recuperação para a sua enfermidade.
            Feliz Natal para você, criança abandonada, que desamparada caminhará com passos ligeiros rumo ao desconhecido abismo, se em seu trajeto não surgir outra estrela que ilumine o seu caminho.
            Feliz Natal para você, zeloso operário, que vencendo dificuldades e incertezas, mas sempre cheio de fé, ruma para o trabalho rotineiramente em busca da felicidade que constitui a vida, garantindo assim o sustento de sua família.
            Feliz Natal para você, gente humilde dos morros, que estando mais perto de DEUS nem sempre pensa dirigir-Lhe uma simples prece.
            Feliz Natal para você, abnegada e dedicada enfermeira, que muitas vezes interrompe seu necessário repouso, perdendo noites de sono em permanente vigília, para atender e minorar as angustias dos enfermos.
            Feliz Natal para você, mãe carinhosa, que não regateia sacrifícios para proteger o filho; esquecendo tudo é capaz de dar-lhe o próprio sangue para lhe saciar a fome e mitigar sua sede.
            Feliz Natal para você, destemido marinheiro, meu companheiro de todas as horas, e que muitas vezes, como eu, também já se privou da companhia do lar, em outras noites como esta, para atender o chamado do dever para com a Pátria e assim garantir a mais completa tranqüilidade para milhões de brasileiros.
            Feliz Natal para vocês, militares e policiais, que como o marinheiro também estão atentos aos deveres e obrigações para com a Pátria e a sociedade, esta mesma sociedade que pouco ou nenhum valor reconhece nos servidores militares e policiais.
            Feliz Natal para você, Pátria brasileira, cuja Bandeira tremulando sempre altaneira - Bandeira auriverde de nossas esperanças, que representa uma raça cheia de fé e com o espírito voltado para sua Pátria pode dizer hoje e sempre a uma voz:
                                                           FELIZ NATAL para o Universo!!! 

José Augusto de Oliveira

FÉRIAS DE FERAS
            
            No ano de 1947, era o segundo ano que a Marinha concedia férias após a guerra.  Todavia o pessoal com famílias no Norte e no Nordeste, de onde procedia a maioria dos marinheiros, encontrava sérias dificuldades de transporte, sendo então o navio o meio mais regular e comum, considerando a existência dos velhos navios do Lóide e da Costeira que ligavam os portos
            Naquele ano estava eu embarcado no navio transporte de tropas “Duque de Caxias”, que por ocasião de sua segunda viagem à Europa transportando repatriados, no dia 31 de julho de 1946, foi tomado por pavoroso incêndio que fez várias vítimas fatais, inclusive um sargento da guarnição.
            E foi justamente no ano de 1947 que cerca de 150 marinheiros e fuzileiros navais viajaram como excesso no navio de passageiros “Pará”, do Lóide Brasileiro, conseqüentemente sem acomodações, viajando como animais e tendo como alimentação a mesma comida fornecida aos passageiros de terceira classe que também se assemelhavam a animais.
            Eu e outros marinheiros do “Duque de Caxias”  procuramos nos encostar à cozinha oferecendo nossos serviços como ajudantes para descascar batatas, legumes, lavar louças e fazer faxina na cozinha no final das atividades diárias.
            Em tais circunstâncias a nossa alimentação seria a mesma dos passageiros de primeira classe e da oficialidade de bordo.
            Éramos em número de seis, o máximo aceito pelo chefe da cozinha, que já sabia que muitos se ofereciam para o trabalho, mas desapareciam depois de pegar o melhorado.
            Um cabo velho, marinheiro experimentado e que há pouco havia viajado naquele navio, conhecia o pessoal da cozinha; e sendo por ele recomendado, o grupo foi aceito na cozinha na qualidade de ajudantes, uma vez que o referido CB-MR  seria responsável pela conduta dos apresentados.
            O primeiro porto a ser tocado seria o de Recife, onde as autoridades navais já haviam tomado conhecimento de uma série de irregularidades praticadas a bordo do navio, sendo a mais grave o lançamento dos pratos de alumínio ao mar, findo cada rancho, como sinal de protesto pela péssima qualidade da alimentação.
            Foi justamente nessa viagem que pude presenciar o marinheiro que se jogou do navio ao cais pela borda antes de o navio atracar, fato narrado com o título de “Gratidão eterna” em outra parte deste livro. quando avistou o navio que havia salvado os náufragos do Cruzador “Bahia”, no ano de 1945.
            Era verdade o lançamento dos pratos de alumínio não diretamente ao mar, mas para o alto, cuja evolução dos mesmos talvez hoje justifique a aparição dos famosos “discos voadores”, tal qual evoluíam no espaço os pratos jogados para o alto.  Contudo as autoridades não tinham elementos para identificar os seus autores, ainda mais porque a metade já havia desembarcado ali no porto de Recife onde usariam outros meios de transporte com destino a Salvador, Aracaju, Maceió Natal e João Pessoa..
            Um dos marinheiros que a bordo fizera amizade com uma freira, inclusive conhecendo seus familiares em Belém, prometeu-lhe que logo chegassem ao porto de Recife iria levá-la para conhecer a cidade, como também para fazerem uma boa refeição nas pensões que a ele foram recomendadas, fato que muito alegrou a religiosa, uma vez que também viajando na terceira classe não conseguia ingerir a comida de bordo.
            Às 13:00 horas quando o navio atracou, os primeiros a saírem de bordo (depois, é claro, do marinheiro que saltou pela borda para ir saudar o cargueiro inglês “Balfe”) além dos marinheiros com destino aos portos já mencionados, foram o marujo e a freira, que nas mãos levava um maço de santinhos para distribuir pela cidade.
            Por sugestão da própria freira, primeiro se almoçaria numa dessas pensões modestas, para depois o passeio pela cidade, já que o regresso estava previsto para a meia-noite.
            O marinheiro, por inocência, ou mesmo por ingenuidade, não pensava que as pensões do Recife tivessem outra significação e que fossem como as do Rio de Janeiro: local para se fazer refeições por preços menores.
            Foi ainda a bordo que o marinheiro em conversa com outros colegas ficara inteirado dos endereços das pensões em Recife, porém sem os detalhes e suas finalidades, razão porque indicaram a pensão mais “famosa” que eles conheciam, por ser a de mulheres mais escrachadas, porque não sabiam que era para uma simples refeição com a presença de uma religiosa.
            A pensão se localizava justamente nas imediações do cais do porto, muito freqüentada por marinheiros, embarcadiços, estivadores e, preferencialmente, pelas mundanas mais sem classe do Recife.
            Já no trajeto, tanto o marujo quanto a freira, iam notando mulheres sentadas nas janelas, com roupas sumárias e proferindo os mais cabeludos impropérios, não respeitando sequer a figura da religiosa que por elas passava, inclusive cumprimentando-as.
            E quando subiram os degraus da pensão que ficava no sobrado, o cartão de visita foi um cachorro leproso cobrindo uma cadela não menos leprosa, mas já no final, estando apenas engatados, o que não deu para chamar muito a atenção da freira.  Mas quando sentaram à mesa, a garçonete já puxando uma rama, assim se dirigiu à freira:
            - “Hei, você aí, putinha, vais beber pinga ou cerveja!
            - Cruzes, pronunciou a freira, levantando-se e fazendo o sinal da cruz, enquanto cobria de tapas o pobre marinheiro, que apenas se defendia e dizia: “Irmã, eu juro que não sabia que esta pensão não prestava”.
            - Você é safado mesmo!  Eu vou voltar para o navio e fazer queixa ao comandante!
            E com a ajuda de um velho estivador que ia justamente render o turno no navio, a freira foi conduzida de volta para bordo, e ali chegando quis falar com o comandante, que depois de ouvi-la fez-lhe ciente que não tinha nenhuma autoridade sobre o marinheiro, por ser militar, e não tripulante do navio.
            Aconselhou-a procurar as autoridades navais em Belém, porto de destino dela e do marujo, que inclusive havia lhe fornecido seu nome completo, endereço, etc., pois sua irmã mais velha pertencia àquela mesma Ordem, razão porque se concluiu que realmente o marinheiro era mesmo ingênuo, ainda mais porque estava completando um ano de vida marinheira.
            E realmente a freira procurou as autoridades navais ao chegar em Belém, pois em seguida chegava à casa dos familiares do marujo a escolta para conduzi-lo à Base Naval, acompanhando-o sua irmã religiosa, que inclusive conhecia a freira com quem seu irmão se envolvera nesse episódio... e já sabia do ocorrido.
            Como a freira irmã do marujo era muito amiga do Comandante da Base e de sua família, prontamente conseguiu convencê-lo da ingenuidade do irmão dela, que apesar de ser marinheiro havia deixado o seminário para ingressar na Marinha, contra a vontade da família, que tudo estava fazendo para demovê-lo da vida militar, no que o marujo não concordava, se a Marinha era sua vocação.
            Este episódio ficou conhecido quando do seu regresso das referidas férias, a bordo do navio da Costeira “Itaimbé”, pelo próprio envolvido, que dois anos depois. na cidade de Salvador, iria encontrar a ex-freira já “canonizada” e freqüentadora assídua de um dos cabarés mais famosos da cidade: O “Tabaris”.
            Não conheci o marinheiro pivô dessa ocorrência, mas soube que permaneceu na Marinha, talvez já estando até na inatividade... se é que ainda não se transferiu para a eternidade, como tantos outros.
  

VOLTA DAS FÉRIAS DAS FERAS

 (Primeiro caso)


            Quando do regresso dessa turma de férias que viajou no “Pará”, a volta seria no navio da Costeira “Itaimbé”,  no qual eu também viajava finda as minhas férias, embarcando no porto de Fortaleza, podendo testemunhar os vários episódios pitorescos acontecidos no decorrer da viagem e mesmo antes.
            Dentre cerca de cinqüenta marinheiros que gozaram férias no Estado do Ceará havia um cabo fuzileiro naval, que fora àquela Capital para os funerais de sua genitora, dois anos após o falecimento do genitor.
            Da família só restavam ele e sua irmã mais nova, então com dezoito anos, que ficaria no Ceará se não houvesse como embarcá-la, pois era intenção do fuzileiro expor ao comandante do navio sua situação e sem recursos para resolvê-la se não houvesse ajuda.
            Como o embarque seria a partir das 22:00 horas, a marujada ficou concentrada no bar mais perto do cais no bate-papo com os familiares.  Inesperadamente adentrou o bar acompanhado de sua irmã o CB-FN, que desejava saber quem era o mais antigo do grupo, logo se apresentando o CB-MR conhecido por “Patola”, que inteirado da situação do colega  prometeu “quebrar o galho”, e dando conhecimento aos demais marinheiros, e logo um deles apresentou de pronto a solução.  Levaram a mocinha para o interior do bar e vestiram-na com uniforme de marinheiro, com direito a botinas e caxangá  abarracado...
            - E como ela vai entrar a bordo, perguntou seu irmão , o CB-FN?
            - Colega, falou o marinheiro que dera a solução, para nós marinheiros o conferente não exige qualquer documento, pois é praxe o mais antigo apresentar-lhe apenas a relação do pessoal.
            - E como minha irmã vai poder entrar a bordo sem ser notada sua qualidade feminina.?
            - Deixa comigo, falou o mesmo marinheiro.  Um de nós põe a moça no ombro, como se estivesse embriagada e ninguém vai perguntar nada.
            - E os cabelos, pergunto o naval!
`           - Deixa também comigo, falou o mesmo marujo, que abrindo seu saco tirou uma tesoura e cortou o necessário para que desse para o chapéu abarracado cobrir.
            E quando começava o embarque, a marujada em fila indiana ia se infiltrando entre os passageiros, inclusive o marinheiro mais robusto a quem foi confiada a tarefa de conduzir o falso marinheiro do sexo feminino, que chegando a bordo trocou de roupa e passou a usar um lenço na cabeça, viajando tranqüilamente até o porto do Rio de Janeiro, sem ser identificada a bordo .
            Era então o conhecido jeitinho, não brasileiro... mas, marinheiro.

                                                           (Segundo caso)

            Também no porto de Fortaleza foram embarcados dois grandes cestos com mangas rosas endereçadas ao Ministro da Guerra de então, cujos volumes foram cuidadosamente colocados num compartimento ao lado do banheiro dos foguistas,  atendendo recomendação da autoridade remetente, o governador do Ceará.
            Um “cabo-velho”, foguista, que inclusive presenciara a entrega dos cestos e as recomendações,  fizera amizade com o pessoal de máquina do navio,  conseqüentemente com o privilégio de tomar banho durante a viagem no banheiro privativo dos foguistas de bordo, pois os passageiros de terceira classe só tomavam “banho” de suor.  Despertado pelo cheiro das mangas, não foi difícil localizá-las.  À noite, já tarde, o marujo levava certa quantidade de mangas para vender na proa, recomendando aos compradores que teriam de consumi-las ali mesmo, pois era proibida a venda de qualquer alimento a bordo.
            Como a comida dos passageiros de terceira classe era intragável, cada dia aumentava a freguesia para a compra das deliciosas mangas, algumas pesando mais de meio quilo.
            Finda a venda do dia, os caroços e as cascas da fruta eram devidamente recolhidas e colocadas de volta nos cestos.
            Quando terminou o estoque, o cabo foguista refez a costura dos cestos, porém colocando cabos velhos imprestáveis e algumas defensas para fazerem peso.
            E quando o navio atracou em um dos armazéns do cais do porto, ali já se encontrava uma viatura do Exército com alguns soldados para transportar os dois volumes destinados ao Ministro da Guerra.
            Quem pagou o pato pelo que aconteceu, nunca se ficou sabendo.

                                                          (Terceiro caso)

            De Belém para Salvador viajava um marinheiro de primeira classe, telegrafista, que, todavia, ficaria nas mesmas condições de desconforto dos que viajavam na terceira classe Mas, por viajar com passagem adquirida pelas autoridades navais por estar a serviço da Marinha, tinha o privilégio de alojar com os tripulantes de bordo de igual categoria, inclusive com direito a alimentação melhorada.
            Como ia viajar em navio mercante, mas de passageiro, teve o cuidado de se preparar para qualquer aventura.   E não havia de falhar..
            Desde que ele chegara no cais, a paisana, estava de olho em uma passageira que se fazia acompanhar de uma senhora de certa idade, fazendo crer ser sua genitora. 
            A passageira mais jovem era esposa de um oficial do Exército que havia sido transferido para o Rio de Janeiro, mas que não pudera de pronto levar sua família.
            Logo que o marujo embarcou, como dispunha de acomodações, tratou de tomar um banho e vestir um dos seus melhores ternos e ficou ali pelas imediações da estação rádio de bordo, onde já havia feito amizade com os colegas de profissão . 
            Por ocasião do navio desatracar, quando o movimento no cais e a bordo é mais intenso,  o  marujo localizou  na  borda, perto do passadiço, a referida senhora, que viajando de primeira classe dispunha de confortável camarote, e onde já deixara sua genitora... e principalmente por ser esposa de oficial, merecendo, portanto, regalias.
            Logo que o navio desatracou, o paquerador tratou de arranjar uma cadeira “espreguiçadeira” para fazer média com a sua “paquera”, que já se mostrava mais íntima com ele.
            Na hora das refeições, a desculpa que dava para não acompanhá-la, era de que estava arranchado com a oficialidade, cujo rancho era servido sempre antes.
            Acontece que o marujo estava mais duro que cabo de reboque, não tendo dinheiro nem para comprar cigarros.  E sempre que via um colega puxar a carteira de cigarros de melhor qualidade, pedia-lhe que lhe cedesse o maço “pois este é o cigarro que a minha garota fuma, mas não há na cantina do navio”... E assim ele ia filando de quantos encontrasse qualquer que fosse a marca do cigarro, porém disfarçando seu estado de quase miséria.
            À noite, quando os passageiros da primeira classe se dirigiam para o salão de músicas ou para o bar, ele e sua “amada” aproveitavam para a troca de carícias.
            E assim viajaram até a noite que antecedeu à chegada ao porto de Salvador, pois durante aquele dia não apareceu nem para o almoço e jantar, ficando com a “respeitável” senhora até alta madrugada, mas sem informar-lhe que desembarcaria naquele porto.  Entretanto, havia dito para ela que estava a serviço da Marinha e fazia inspeção nas organizações militares, nem sempre com possibilidades de dar continuidade às suas viagens. Contudo, se o navio demorasse mais de 24 horas como estava previsto, era quase certo ele prosseguir sua viagem até o Rio de Janeiro; porém não despediu-se da sua conquista, tamanha era sua fome, senão a preocupação para não ser identificado pela sua “deusa”                         
            Pelo seu desembaraço, aparência e principalmente a maneira de conversar,  dava para acreditar em suas falsas aparências
            Como naquele último dia não almoçara nem jantara para aproveitar todo o tempo disponível com aquela senhora, por volta das 02:00 horas da madrugada quando já não agüentava a fome, foi diretamente à cozinha a procura de comida, porém não encontrou nem café...  E como matar a fome voraz!!!.
            Sem esperança de encontrar alimento resolveu ir deitar-se, pois deveria acordar cedo para se preparar para desembarcar tão logo o navio atracasse, o que estava previsto para as 08:00 horas.  Mas, quando passava por um dos porões perto do alojamento em que ele estava alojado, aconteceria o milagre: ao lado de enorme e linda arara em seu balanço, estava uma travessa de louça com as melhores iguarias, se a ave era do comandante...  ocasião em que a fome do marujo mais se aguçou. Olhando para todos os lados e não vendo ninguém acordado, tratou de arrancar a travessa e levar para local mais seguro.  Porém quando suspendeu a travessa a arara deu um berro tão alto que acordou muitos dos marinheiros que dormiam de volante  no convés, além de dar-lhe tremenda bicada no nariz, obrigando-o a procurar a enfermaria de bordo para ser medicado porque sangrava muito.
            E quando o navio atracou, para sua tranqüilidade, no cais conseguiu carona numa viatura do Comando do 2º Distrito Naval, livrando-se assim de ser desmascarado pela sua companheira de viagem, pois se tivesse que fazer o trajeto pela saída principal teria dado de cara com a sua “amada”, que fora esperá-lo ali...  mas  que talvez nem o reconhecesse por estar ele fardado e com sugestiva máscara de esparadrapo no nariz, doce recordação de uma feliz aventura para um marinheiro de primeira viagem... em navio de passageiros, que tão bem soube conquistar uma “pau de arara” mas não soube se livrar de uma “inofensiva” arara.  Coisas da vida... de bordo.



José Augusto de Oliveira


   HOJE É GALINHA!!!
  
            Um dos colegas de minha turma da Escola de Aprendizes Marinheiros do Ceará, que por algum tempo me acompanhou nas diversas comissões em que servimos, comigo embarcou a bordo do encouraçado “São Paulo”, quando no porto de Recife, no ano de 1943, mais precisamente no mês de agosto, na efervescência da Segunda Guerra Mundial.
            De Recife para o Rio de Janeiro, para fins de cursar máquinas, viajamos a bordo do cruzador “Rio Grande do Sul”, onde o então marinheiro - personagem carismática dos episódios que adiante serão narrados, começava sua luta com o mar considerando que enjoava só de ver mulher rebolando, quanto mais viajando em alto mar, mesmo com tempo bom.
            Do Quartel de Marinheiros, que então era sediado na Ilha das Enxadas, onde atualmente se localiza do Centro de Instrução Almirante Wandenkolk, fomos apresentados à Base de Navios Mineiros e da Defesa Flutuante, conhecida como “base do osso”, para fazer o curso profissionalizante.
            A unidade era conhecida como “base do osso” porque a comida era de péssima qualidade, e só se comia carne quando se mordia as bochechas.  Tanto que até o urubu “Chico”,  mascote da Base, dali desertou para não morrer de fome.
            Logo que ali na Base fomos apresentados, a nossa principal preocupação era com o conforto, principalmente o rancho, que era intragável, além de se dormir de maca.
            Aconteceu, porém, um milagre, pois em determinado dia (talvez promoção do comandante), o rancho, pela primeira vez, pelo menos depois que ali chegamos, era diferente.
            Um dos rancheiros era justamente o nosso focalizado, que, entre surpreso e feliz, saiu pelos quatro cantos da unidade informando aos colegas da turma - cerca de 90 marinheiros, que o rancho naquele dia (almoço) era galinha...  mas o fazendo de maneira tão comovente, como se estivesse anunciando verdadeiro milagre... talvez com mais euforismo do que se fosse o fim da guerra.  Por isso é que o fato ficou deveras marcado, ensejando mesmo que os colegas passassem a repetir daquele dia em diante: “hoje é galinha”!!!
            Ele próprio gargalhava gostosamente quando nós o remedávamos com o refrão: “hoje é galinha”!!!
            Meses depois deixamos aquela Base e fomos servir nas lanchas que patrulhavam a barra do porto do Rio de Janeiro, já sediadas então na Escola Naval (antes fora no Iate Clube do Rio de Janeiro, de onde foram requisitadas as referidas lanchas).
            Ali na Escola Naval a alimentação era excelente, com amplos e confortáveis alojamentos com beliches, banheiros com água em abundância, afora as quadras de esportes e modernos ginásios.
            E além das lanchas para transporte de licenciados para a Praça Quinze, havia considerável número de ônibus  para a mesma finalidade, só que na Esplanada do Castelo, mais precisamente em frente ao prédio onde então se localizava a “Esso”.
            Em situação tão privilegiada, tudo se fazia para não se deixar aquela comissão onde oficialidade e guarnição, com poucas exceções, eram da melhor qualidade.
            Da nossa turma de aprendizes, somente eu e o focalizado servíamos naquele verdadeiro paraíso.
            Com disponibilidade de tempo, embora o serviço de patrulha fosse em dias alternados, mesmo assim a folga era empregada em coisas úteis.
            Inicialmente nos matriculamos no curso de datilografia da Escola Remington, na rua Sete de Setembro, cujo curso então não era concluído com menos de oito meses; e muitos iam muito além.
            Finda a guerra, em 1945, voltaríamos à “base do osso”, felizmente para embarcar no contratorpedeiro “Santa Catarina” que ali se encontrava atracado, porém com comando independente e rancho próprio, por sinal também muito bom, principalmente porque grande número de sargentos e marinheiros das lanchas de patrulhas foram embarcados no contratorpedeiro, inclusive o Fiel, que a bordo era o responsável pelo “picado”.
            Todavia, dois meses depois estava eu desembarcando para servir na Base da Flotilha de Submarinos e o colega aqui focalizado para uma unidade em terra, uma vez que comissão embarcada para ele era verdadeiro suplício.
            Então, desde que nos separamos, quando do desembarque do CT “Santa Catarina”, nunca mais voltamos a servir na mesma unidade, porém  sem esquecer do querido amigo, manhoso, mas de grandes virtudes e qualidades, sem se falar na profissional como escrevente.
            Eu, principalmente, era o que mais divulgava as artimanhas desse colega, principalmente o caso que se tornou famoso: “hoje é galinha”!!!
            Já suboficial e então servindo na Diretoria de Eletrônica da Marinha, na Ilha das Cobras, ali se apresentava para servir o Sargento Nogueira (escrevente), que também conhecia o nosso focalizado, pois fizeram juntos o curso de escrita no CIAW, se não me falha a memória, no ano de 1947.  Contudo, o Sargento Nogueira não sabia do caso: “hoje é galinha”!!!.
            O Sargento Nogueira, que ria até de fratura exposta, quando tomou conhecimento do fato, logo que me avistava já estava rindo, lembrando do fato que lhe fora narrado a respeito do nosso colega, justamente por ocasião do almoço que no dia o pranto principal era galinha.  E se então eu soubesse da reação do Nogueira não teria contado o episódio ali na mesa, pois teve ele uma crise de riso que até me deixou preocupado... Mas tudo acabou bem.
            Dali por diante, sempre que eu via o Nogueira aborrecido ou preocupado com o serviço, já sabia como modificá-lo.  Bastava repetir: “hoje é galinha”!!! Era como água na fervura; e logo estava ele sorridente.
            Meses depois desembarcava para ir mestrar o Navio Transporte de Tropas “Custódio de Melo”, ficando mais de quatros anos ser ver o já Suboficial Nogueira, o mesmo acontecendo com referência ao outro colega também já suboficial.
            Do “Custódio de Melo” desembarquei para mestrar o navio escola “Guanabara”, onde fiquei apenas seis meses, desembarcando precisamente no dia 19 de novembro de 1959 para me apresentar na Diretoria do Pessoal da Marinha, onde iria servir.
            Por ser o dia consagrado à Bandeira, ao meio-dia haveria o cerimonial de içamento da Bandeira com a guarnição do Ministério formada no pátio em frente ao cais, conhecido como o Cais da Bandeira.
            Como havia me apresentado na comissão por volta das 11:30 horas, tive permissão de baixar a terra, ficando, portanto, dispensado de formar para o cerimonial e logo tratando de sair das imediações do Ministério antes da cerimônia cívica.
            Se bem pensei, melhor agi.  E quando me dirigia para o portão de saída já estavam formados civis e militares servindo nas diversas repartições do antigo Ministério da Marinha, inclusive o pessoal do Gabinete do Ministro, onde servia o Suboficial Nogueira.
            E ao vê-lo em formatura julguei que ele não iria ter qualquer reação, razão por que ao passar por trás dele na formatura, disse-lhe ao ouvido com a mesma voz característica do autor: “hoje é galinha”!!! e continuando a caminhada.  E quando uns vinte passos depois olhei para trás, pude ver o Nogueira se contorcendo como se estivesse com fortes cólicas... Mas estava rindo mesmo, contudo querendo simular que se contorcia de dor.
            Nem seria preciso dizer que foi levado diretamente para o posto médico existente nas imediações, ao lado da Auditoria da Marinha.
            Na segunda-feira, quando me apresentava finda a licença, nem procurei me inteirar do ocorrido, mas procurando fugir do Nogueira como o Diabo foge da cruz, não com receio de reprovação, mas tão somente para não vê-lo outra vez em crise de riso, principalmente porque no rancho do Ministério, pelo menos uma vez por semana, nem era necessário ser anunciado... era galinha mesmo!  E naquela segunda-feira era o prato do dia.
  

José Augusto de Oliveira

HORAS DE VIGÍLIA NO MAR

            Hoje, apesar da longevidade, ainda tenho a satisfação de relembrar os dias de minha adolescência na Marinha, onde ingressei aos dezessete anos de idade, na Escola de Aprendizes Marinheiros do Ceará, no dia 14 de dezembro do ano de 1942.
            Naquele ano o Brasil já havia declarado guerra aos países do eixo, cabendo então à Marinha de Guerra o patrulhamento das costas e o comboio de nossos navios mercantes e os de países aliados em tráfego pelas águas territoriais brasileiras e mesmo estrangeiras, considerando o torpedeamento de muitos navios nacionais e alguns estrangeiros em nossas águas, resultando o sacrifício de centenas de vidas preciosas, se fazendo assim necessária a ação decisiva de nossa Marinha, que inicialmente deslocou suas duas maiores belonaves - encouraçados “São Paulo”e “Minas Gerais” para os portos de Recife e Salvador, respectivamente, onde ficaram sediadas até o final da Segunda Guerra.
            Todavia, as tarefas mais sacrificadas foram determinadas aos cruzadores “Rio Grande do Sul” e “Bahia”, contratorpedeiros, caça-submarinos, corvetas e lanchas de patrulha, que se faziam ao mar em qualquer situação impulsionadas pela bravura e o sentimento de patriotismo de suas tripulações, pois então não se dispunha de material bélico adequado, fator primordial para o nosso país cumprir sua missão.
            Do ponto mais elevado das belonaves, precisamente nos cestos de gávea, localizados no mastro principal, se podia “varrer” os horizontes com mais precisão, com ajuda de binóculos, para melhor se localizar o perigo permanente que se constituía na presença oculta dos submarinos inimigos..           
            Da eficiência do vigia do horizonte dependia toda a segurança do navio e, conseqüentemente, da tripulação, senão do próprio comboio.
            Excetuando-se os destróieres-escolta e os caças-submarinos cedidos pelos americanos, os demais navios sequer dispunham de frigoríficos, conseqüentemente sem condições de conservarem alimentos perecíveis, obrigando a que a alimentação fosse apenas de víveres que não exigissem cuidados especiais.
            Água, só se dispunha para o preparo da alimentação e o consumo do próprio navio nas caldeiras.  Banhos, somente com água salgada durante todo o tempo que durasse a viagem.
            Mas, todas as dificuldades eram encaradas com sentimento patriótico e muita fibra marinheira, e qualquer sacrifício exigido jamais foi negado.
            Toda e qualquer atividade a bordo era de vital importância para a segurança dos navios, pois estes não podiam ser pegados de surpresa pelos submarinos inimigos que infestavam os mares.  Entretanto, a função do vigia era muito mais importante e sua atenção era tanta que muitas vezes ao anunciar “periscópio a vista”, imediatamente era tocado postos de combate... quando na realidade se tratava, muitas vezes, de simples pedaços de madeira lançado ao mar por navios mercantes que integravam os comboios, embora fosse proibido o lançamento de lixo ao mar, para não deixar pista ao inimigo... sempre de atalaia.
            Muitas vezes os próprios peixes que costumam nadar mais à superfície, suas barbatanas cortando as águas davam o mesmo aspecto do periscópio ou da esteira deixada pelos torpedos quando lançados.  Portanto, eram válidas quaisquer informações do vigia do horizonte, mesmo as anormais, pois enquanto eram checadas as informações, a tripulação já havia guarnecido seus postos de combate para dar cabo ao inimigo se sua presença fosse constatada.        
            À noite, a atenção era redobrada, exigindo até que os navios navegassem às escuras, sendo proibido fumar no convés.  E tudo que à noite refletisse brilho era evitado no convés, onde se faziam marcações com cal ou com cordões fluorescentes para orientar os que transitassem pelo convés para guarnecer os postos.
            Se o jogo do navio se fazia sentir acentuadamente até mesmo no convés, é de se considerar o sacrifício de quem guarnecia o cesto de gávea.
            Eram poucos os que não enjoavam quando guarnecendo aquele posto, mesmo se o mar se apresentasse espelhado, pois menor que fosse o balanço dava a impressão de que o navio ia virar... principalmente para os que ainda não estavam habituados àquele serviço.  E quando o mar estava encapelado, muitas vezes era necessário o uso de balde para em caso de enjôo ser utilizado... até mesmo pelos veteranos.
            Sistematicamente, devido à pouca velocidade de alguns navios mercantes, a marcha padrão do comboio era regulada pela do navio de menor velocidade.
            Assim, mesmo para se cobrir percursos entre portos nacionais, muitas vezes se levava até dez dias ou mais de viagem,  dependendo da distância entre os portos... e o raio de ação dos navios mercantes que integravam o comboio
            De um modo geral, os navios mercantes de então desenvolviam entre oito a dez milhas horárias; conseqüentemente para cobrir um percurso de 2000 milhas se gastava entre 9 a 10 dias, dependendo também das condições do mar.
            Nos percursos entre portos nacionais e estrangeiros, os navios empregados eram bem mais velozes.  Todavia se adotava a “marcha de cruzeiro”, levando sempre em consideração o navio de menor velocidade.
            Finalmente, quando o navio aportava, mesmo no estrangeiro, a tripulação não deixava de baixar a terra, mesmo que fosse pela madrugada.
            Era comum os navios de guerra que faziam o comboio entrar nos portos apenas para reabastecimento, logo se integrando em outro comboio, de retorno ao porto de origem, quer do exterior para o Brasil ou mesmo entre portos nacionais.  Era a necessidade de se ganhar tempo.
            No regresso então, o tempo de licença era aproveitado ao máximo, fosse para o convívio com a família ou para o desfastio da vida de bordo durante tantos dias no mar.
            Em portos nacionais e estrangeiros não havia restrição para a marujada, ainda que houvesse para os militares das outras armas, principalmente no Brasil.
            E quantas vezes se chegava à meia-noite em determinados portos e ao amanhecer já se deixava o porto!  Nessas circunstâncias então não havia licenciamento.
            Portanto, quem sobreviveu da Segunda Guerra Mundial, tendo feito comboios e patrulhamento nas costas do Atlântico, viveu sua própria odisséia, principalmente se uma vez, apenas, vigiou o horizonte guarnecendo o posto de observação do cesto de gávea quando o navio em viagem.
            As poucas horas de vigília por outras tantas de descanso, quando a disponibilidade de pessoal permitia, justifica a inatividade remunerada que hoje desfrutam os ex-combatentes das Marinhas de Guerra e Mercante do Brasil
            As horas de vigília experimentadas em minha adolescência quando na Marinha, foram a testemunha insofismável de que um adolescente pode chegar até a ser herói, mas o foi quase que inconsciente, como seria o meu caso, pois  vibrava com a idéia de ingressar na Marinha.  E, mais tarde, já embarcado, sempre me apresentava voluntariamente para as missões mais árduas ou perigosas, pois naquela idade (18 anos) não me amedrontava o perigo, e até exultava de contentamento quando ouvia o costumeiro toque de postos de combate, na expectativa mais  sôfrega de ver o meu navio abrir fogo contra navio inimigo, como se os nossos navios fossem invulneráveis.
            Igualmente vibrava quando na iminência de ataque do submarino já plotado, ser necessário  o lançamento de bombas de profundidade, mesmo sem a certeza de que atingiriam o alvo.
            Era nessas ocasiões que o vigia do mastro mais se interessava pela localização de destroços ou mesmo manchas de óleo do submarino inimigo se acaso fosse atingido, embora também utilizassem desse artifício para escapar ilesos dos ataques e depois voltar a atacar.
            A aparição de submarinos inimigos, principalmente à noite, era muito freqüente quando nos comboios de navios mercantes transportando víveres, combustível, armamento, etc. para nós ou para os aliados.
            Felizmente, dos comboios que a Marinha brasileira participou, apesar de serem freqüentas as tentativas de ataques, nem um resultou em baixa para nossa frota.
            Hoje faço uma pálida avaliação de qualquer que seja a guerra, pois ainda que para ser herói de verdade fosse necessário tirar a vida de um semelhante, declinaria então da honraria.
            Que doravante nossa luta permanente seja simplesmente pela tão almejada paz, para que todo o Universo se confraternize. E que as grandes potências ditas poderosas, não voltem a usar suas armas para o extermínio da humanidade que por DEUS foi criada.
            Lembremos que o dia da Vitória é de alegria para uns e de tristezas para outros, que talvez tenham lutado sem sequer saberem o verdadeiro motivo pelo qual tiravam a vida de seus semelhantes... e ainda tendo que prestar contas um dia ao Criador, que por certo os isentará de culpa, se sabe que foi no estrito cumprimento de ordens... e não propriamente do dever.
            E hoje se me fosse dado o ensejo de ainda guarnecer um posto de “vigia”, eu queria de preferência que fosse no mar, precisamente no cesto de gávea do mastro de uma belonave, para perscrutar os mesmos horizontes dos mares onde estão sepultados os heróis marinheiros que deram a vida pela Pátria.  E não esqueçamos jamais que o oceano é o túmulo mais digno para os marinheiros das gloriosas Marinha de Guerra e Mercante do Brasil.
            Seria, pois, a hora da vigília da despedida, porquanto a vigilância permanente dos nossos mares agora é feita por DEUS e pelas nossas belonaves, que sistematicamente cruzam os mesmos mares que outrora foram palco de sangrenta luta que ceifou a vida de milhares de brasileiros, deixando até hoje muitos lares para sempre enlutados.
            Na memória da Pátria se exalce o valor das Marinhas de Guerra e Mercante - Sentinelas permanentes dos mares na união dos povos livres e amantes da Liberdade!!!


José Augusto de Oliveira

MARINHEIRO NO PROGRAMA “HORA DO PATO”
  
            Quando cheguei ao Rio de Janeiro no ano de 1943, precisamente no dia 13 de outubro, no primeiro domingo em que baixei a terra, em companhia de três colegas fui ao subúrbio da Central, no bairro de Quintino, levar uma importância em dinheiro enviada por um marinheiro do encouraçado “São Paulo”, então no porto de Recife, e de onde eu e os referidos colegas havíamos desembarcado para fazer cursos no Rio de Janeiro.
            Devidamente bem informados tomamos o bonde com destino àquele subúrbio, não sendo difícil encontrar o endereço procurado.  E na casa onde íamos, os familiares já nos esperavam com almoço irrecusável: galinha ao molho pardo.
            Naquele domingo, sob o comando do animador Héber de Bóscoli, na Rádio Nacional, seria apresentado pela primeira vez o programa “Hora do Pato”, com início marcado para às 13:00 horas.
            No horário previsto o programa foi ao ar, e a característica principal era o estrilo do pato, grasnando intermitentemente para o público se familiarizar com o animado programa.
            Foi chamado então o primeiro candidato, que apesar de se apresentar razoavelmente, mal principiou seu número o pato estrilou demoradamente, para gáudio do auditório que lotava as dependências da emissora, segundo o apresentador do programa. Assim foi o segundo... o terceiro... o quarto, e sempre o pato estrilando e o animador perguntando: “quantas vezes o pato já estrilou”?  E o auditório respondia o número exato.  E para dar mais autenticidade ao programa, quando em vez o animador acrescentava perguntando: “este pato é inteligente... é ou não é”?  E o auditório vibrava, enquanto os calouros iam deixando o palco debaixo de estrepitosa vaia... e o pato sempre estrilando.
            Até que veio o primeiro intervalo para os costumeiros comerciais e consultas ao auditório.
            Ao recomeçar a segunda parte o candidato que se apresentou era marinheiro, conforme anunciava o animador, que inclusive acrescentou: “o marinheiro parece ser bom candidato, pela sua ginga e samba no pé”, pois o mesmo já sambava descontraidamente, até que lhe foi perguntado o que ia cantar.
            Respondeu sem rodeios o nome do samba, cuja ficha técnica já se encontrava com a orquestra, contudo fazendo antes de cantar um ligeiro histórico a seu respeito, ocasião em que pelo timbre de sua voz bem se  podia avaliar que o marujo havia tomado “umas e outras”, talvez até para melhor enfrentar o auditório.
            Em seguida começou sua apresentação; e mal cantara a primeira estrofe o pato estrilou com muito mais intensidade, porém o “quinca” não parava de cantar, como fizeram os calouros que o antecederam.  Ele cantando e o pato estrilando...  e o auditório vibrando.  Até que o marujo se deu por vencido, todavia permanecendo na frente do microfone, enquanto o animador consultava o auditório com a pergunta de quantas vezes o pato já havia estrilado.
            A surpresa foi quando o animador se voltou para o palco e viu o marujo frente ao microfone... meio cambaleante, como se estivesse sentindo o jogo do navio.
            E com a intenção, talvez, de levantar o moral do marujo, perguntou-lhe: - Como é marujo, o palco parece que está balançando, ou você  está pensando que está a bordo do seu navio?
            O marujo, meio sem graça, sorriu.
            Foi quando o animador perguntou-lhe: - Você sabe quantas vezes o pato já estrilou?...
            - Sei lá!  Eu não vim aqui para contar cagada de pato!
            - Mas o pato é ou não é inteligente, perguntou-lhe e voltou-se para o auditório, enquanto ouvia a resposta inesperada:
            - Este pato é puto!..
            Nem é necessário dizer que o auditório vibrou... mas a emissora ficou fora do ar alguns minutos, logo prosseguindo com sua programação que era a primeira do gênero a ser levada ao ar.



José Augusto de Oliveira

MÁGOAS DE CABOCLO

            No ano de 1939, estava sendo construída a estrada de rodagem ligando vários municípios da Serra de Baturité à estrada Fortaleza-Canindé, com entroncamento no outrora povoado Campo Belo, um dos sertões mais agrestes da região pelas constantes estiagens, destacando-se também Caridade e Canindé.
            A estrada teve seu início num verdadeiro despenhadeiro conhecido por “garganta”, até então simples caminho para cavalgaduras, mas verdadeiro precipício.
            Naquele mesmo ano de 1939, Jáder fazia sua última caminhada por aquela trilha, sendo que já havia um trecho de cerca de dois quilômetros de estrada aberta, mas ainda não trafegável, exceto para as máquinas e caminhões utilizados nos serviços da estrada.
            Quando chovia, coisa muito rara, a não ser no período do inverno... quando havia, o trajeto ficava completamente intransitável até para as montarias, considerando ser o terreno muito íngreme e a terra se transformar em lamaçal, sendo o despenhadeiro pelo lado direito de quem descia o serrado com destino aos sertões daquela região.
            Também naquele ano, mais precisamente no mês de maio, aparecia como verdadeiro sucesso a canção de Leonel Azevedo e J. Cascata “Mágoas de caboclo”, interpretada pela voz privilegiada de Orlando Silva, no auge da glória.
            Devido a inclemência do Sol, preferencialmente as viagens eram empreendidas à noite, tanto em montarias quanto a pé. Conseqüentemente, quando Jáder na época fazia sua última caminhada, foi ao cair da noite, porém em noite de lua cheia, e na ocasião se fazia acompanhar de dois amigos, um dos quais residente em Campo Belo.
            Logo ao anoitecer os três procuraram abrigo para pernoitar, indo Jáder para a casa de pessoas do relacionamento de sua família e os outros dois para a casa do feitor das obras da estrada, padrinho de um deles, e que dava pousada aos viajantes conhecidos.
            Na casa para onde Jáder se dirigiu, morava a jovem Marcelina, moça de apenas dezessete anos, mas já pivô de alguns crimes de caboclos por ela apaixonados... ou por outros motivos, razão porque haviam muitas cruzes no caminho encimando sepulturas de vítimas abatidas na calada da noite em disputa do amor de jovens sertanejas daquela região.
            Ninguém, por mais corajoso, se aventurava a viajar sozinho durante a noite, considerando a presença de animais ferozes e famintos que inclusive estavam dizimando rebanhos na região.
            Na casa de Marcelina, naquela noite de sábado, estavam presentes dois violonistas que disputavam o amor da jovem sertaneja e para ela fariam uma homenagem com músicas românticas.
Como Jáder fosse conhecido da família de Marcelina, assim como dos dois seresteiros, tinha com eles muita intimidade, portanto recebendo tratamento muito especial de dona Santinha, mãe de Marcelina.
            E quando Jáder perguntou se algum dos cantadores já conhecia a canção “Mágoa de caboclo”, o seresteiro de nome Assis foi logo determinando o tom de lá menor e iniciando a introdução, para em seguida soltar seu potencial de voz interpretando a bonita canção.
            Logo em seguida o outro violonista – Tobias, dedilhava seu violão e fazendo fundo musical com a mesma canção declamava o poema: “Três lágrimas”.
            Enquanto Tobias fazia a declamação, Jáder era chamado por dona Santinha para tomar café com tapioca, pois ele havia chegado depois do jantar, que seguindo os costumes do sertão era servido antes do anoitecer, por volta das dezessete horas; também porque Jáder levara fumo de rolo para dona Santinha e dando-lhe pequena importância em dinheiro, conforme lhe recomendara sua genitora.
            Quando mais animada estava a cantoria, a dona da casa determinava que todos fossem se deitar para economizar querosene... e mesmo porque o relógio já marcava nove horas e os visitantes tinham que se levantar às quatro horas da manhã para tomarem seus destinos.
            Os dois seresteiros armaram suas tipóias (rede de qualidade inferior) no alpendre, enquanto Jáder iria dormir na sala, onde normalmente dormia a cabocla Marcelina.
            Logo que as lamparinas foram apagadas, Marcelina ao invés de deitar-se em sua rede, foi para a rede de Jáder e completamente nua, todavia sem demonstrar qualquer maldade, pois era costume no sertão se dormir despido por causa do insuportável calor.  Mas, logo que deitou-se, em pouco tempo já roncava.  Porém, quando Jáder ia deixá-la sozinha na rede em que ele se deitara, para ocupar a rede dela, ela o chamou carinhosamente para ficar em sua companhia, pois necessitava de sua opinião para escolher um dos cantadores, foi como se manifestou, perguntando: “qual deles, seresteiros, deveria ser escolhido para ela namorar”?... Portanto, não havia mesmo qualquer maldade nessa ingênua sertaneja.
            Como Jáder gostava muito dos dois violonistas, respondeu-lhe que a escolha caberia a ela mesma e a mais ninguém. Nada mais perguntou e logo adormeceu, aproveitando-se Jáder para deixá-la sozinha, indo deitar-se na rede dela.
            Por volta da meia-noite chegava o chefe da família, seu Neca, vaqueiro, que trabalhava na fazenda "Alto Alegre", só vindo para casa nos fins de semana, antes fazendo as compras no comércio do povoado de Campo Belo, sempre acompanhado de outros moradores da vizinhança
         . E ao ouvir bater na porta, Marcelina foi abri-la, sem sequer se cobrir, pois continuava despida, fazendo acreditar-se ser mesmo costume do sertão; a escuridão era completa dentro de casa
            Seu Neca só teve tempo de abençoar a filha, deixar na cozinha os sacos de mantimentos e logo dirigindo-se para os seus aposentos.
Às 04:00 horas, quando o relógio tocou o alarme, a primeira a levantar-se foi Marcelina, que acordou Jáder e pediu-lhe para que despertasse os dois seresteiros que dormiam no alpendre, vestindo-se em seguida.
            Enquanto o café com bolachas era servido aos seresteiros no alpendre, a família de seu Neca fazia a refeição matinal na cozinha, onde Jáder também estava presente, ocasião em que Marcelina deu o braço para sua mãe cheirar, dizendo que era o “prefume” de Jáder, pois havia dormido na rede com ele... falando com a mais ingênua inocência.
            - Vai ver que o meu “fio” nem “drumiu” direito, foi o que falou dona Santinha, completando seu Neca, ainda nos seus aposentos: - “Esta menina tá querendo um irmão macho”!
            Realmente, naquele tempo não havia tanta maldade; haja vista que o rapaz só vestia calças compridas após completar dezoito anos.
            Depois de servido o café, Jáder, Assis e Tobias foram ao encontro dos outros amigos que pernoitaram na casa do administrador das obras da estrada, dando prosseguimento à viagem, a pé, interrompida na véspera, apesar de ser noite de lua cheia, mas pelos motivos já conhecidos.
            Percorridos cerca de três quilômetros, os dois violonistas tomaram o atalho que os levaria às suas casas, que ficavam afastadas da futura estrada, enquanto o grupo de Jáder prosseguiu viagem, pois a distância que ainda faltava para chegar ao destino era de cerca de quatro quilômetros, talvez não chegando ao destino antes das onze horas.  E realmente, pois quando chegavam ao povoado de Campo Belo o sino da pequena igreja dava o toque final para a missa dominical que começaria às 11:00 horas e da qual ainda assistiram a mais da metade.
            Terminada a missa, todos os três integrantes do grupo tomaram seus destinos, ficando combinado o encontro do grupo na casa de um deles, o que morava no povoado, por volta das 20:00 horas para o bate-papo costumeiro com os demais amigos do povoado.
            Naquele tempo era rara a cidade que dispunha de sistema de luz elétrica, quanto mais os povoados, onde era comum a luz de lamparinas, ou de lampiões e velas nas casas dos mais abastados.
            Por volta das 20:30 horas, na varanda da casa de Orlando, já marcavam presença cinco rapazes e oito moças da vizinhança, sendo duas procedentes da capital que estavam conhecendo a região sertaneja.
            O assunto dominante durante o bate-papo foi a música romântica, principalmente a canção “Mágoa de caboclo”, há pouco divulgada.
            Infelizmente nenhum dos integrantes do grupo ainda não conhecia perfeitamente a letra da canção, embora todos já a conhecessem e alguns soubessem solfejá-la.
            Enquanto outras canções românticas eram cantadas ao som de sonoros violões, chegava de Fortaleza a filha de um dos mais famosos comerciantes da localidade trazendo em sua bagagem um folheto de músicas populares, inclusive a canção tão badalada na ocasião.
            Mal acabava de chegar, Hilda vai logo se integrar ao grupo, pois não só tocava violão, como cantava divinamente, já sabendo de cor a letra da canção coqueluche do momento.
            Por sugestão de um dos integrantes do grupo, ficara decidido que se faria uma visita a algumas famílias tradicionais, começando pela família de Hilda.  Em seguida a visita seria à casa do fazendeiro mais conceituado da região, onde, para alegria de todos, seriam eles surpreendidos  com uma vitrola manual tocando a canção que tanto se comentava, na voz de Orlando Silva, ficando ali encerradas as visitas.
            Naquele saudoso tempo a música romântica era um verdadeiro refrigério sentimental para a alma. Até as próprias músicas de carnaval falavam ao coração.  Aliás, as músicas de carnaval daquele ano de 1939 que mais se destacaram foram: “Jardineira” e “Meu consolo é você”, mas ainda em franco sucesso as músicas de carnaval do ano anterior, 1938, notadamente “Touradas em Madri” e as “Pastorinhas”.
            Quando estavam no auge da alegria, ainda na casa do fazendeiro, chegava a Campo Belo um portador vindo da serra com a infausta notícia de que um dos amigos de quase todos daquele  grupo, carinhosamente chamado de “Zecarioca”, boêmio e amante da música romântica e da poesia, agonizava e talvez não passasse daquela noite.
            No dia seguinte, segunda-feira, pela manhã, em ônibus que se destinava à capital, os três integrantes do grupo e mais uma jovem: Célia, não integrante do grupo, que fora a última namorada de “Zecarioca” e que dele havia se afastado por recomendação médica, por estar ele tuberculoso e na época doença incurável, também viajaria para a capital e de lá para a cidade serrana onde morava o moribundo.
            Da capital para aquela cidade serrana os quatro viajaram naquela mesma segunda-feira, chegando ao destino por volta das 18:00 horas, logo tomando conhecimento de que o enfermo havia experimentado ligeira melhora, talvez porque soubera que sua ex-namorada e grande paixão viria para visitá-lo.
            Logo após o jantar, conforme combinado durante a viagem, foram visitar o moribundo, encontrando-o já recebendo a extrema-unção, depois de ter se confessado e comungado, o que fez ainda sentado na cama, recostado à cabeceira.
            Quando os três amigos entraram nos aposentos do moribundo, sua primeira pergunta foi por Célia, que preferiu entrar por último no quarto.
            Ao vê-la, tentou levantar-se para abraçá-la, mas já não teve forças para seu intento.  Em seguida chamava sua mãe e pedia-lhe que trouxesse o seu violão; e de posse do instrumento deu a introdução da valsa “Caprichos do destino”, que nem chegou a começar a cantar, pois uma última hemoptise lhe seria fatal... e minutos após falecia.
            A dor e o desespero tomaram conta de quantos assistiram ao triste fim de um jovem de apenas vinte e três anos que tanto amava a vida, como também amara Célia, sua última e grande paixão, que foi revelada depois que foi conhecido o seu diário.
            O inveterado boêmio e violonista Valdomiro, amigo que fora do falecido, deste recebera a missão de fazer uma serenata no dia de sua morte, o que não podia deixar de atender, apesar de não agradar à família, que não teve outra alternativa a não ser autorizar, quando tomou conhecimento do pedido por escrito do próprio punho que fora feito dias atrás pelo extinto.
            A própria família teria de intervir junto ao delegado de polícia, muito amigo do finado, para que fosse atendido o seu último pedido, pois a própria autoridade achava ser muito doloroso tanto para a família quanto para os amigos essa mini serenata.
            E à meia-noite, Valdomiro se acompanhando ao violão, chorando, atendia o último pedido de seu saudoso amigo cantando a valsa “Caprichos do destino” em frente à casa onde o corpo estava sendo velado.
            Por ocasião do corpo ser amortalhado, em um dos bolsos do pijama que o cadáver vestia, foi encontrado o bilhete à sua ex-namorada, que se constituía no pedido para que ela, dona de bonita voz, interpretasse a valsa “Mimi” quando seu corpo estivesse descendo à sepultura, pois era com esse nome que ele tratava Célia, que nem sabia ser o nome dessa bonita valsa, cuja letra constava no diário de Manuelito, o nome verdadeiro do extinto.
            Às 17:00 horas, quando se deu o sepultamento, não Célia, que não teve condições para fazê-lo, mas ainda Valdomiro, o conhecido seresteiro, interpretaria a bonita e dolente valsa “Mimi”, uma das canções prediletas de “Zecarioca”.
            No cemitério os rosários e terços pendurados nas cruzes das sepulturas pareciam se agitar, não só pela ação do vendaval que soprava na ocasião, mas pelo prenúncio de forte temporal que se abateria em seguida, pegando todos ainda no cemitério, bem como também pelo pesaroso sentimento que a valsa ali cantada ocasionou.
Do forte e inesperado temporal, à noite a tempestade recrudescia com relâmpagos rasgando as nuvens plúmbeas, enquanto os trovões faziam tremer a terra, como se fosse para atemorizar a própria natureza.
            E durante toda a noite a chuva caiu incessante, sempre acompanhada do vendaval que fez cair casebres, arrancando árvores pela raiz e destruindo os ninhos nelas construídos,  para desespero dos pássaros que os construíram, como se a natureza se mostrasse também solidária com a profunda tristeza que pareceu resultar a morte de Manuelito.
            O dia seguinte, que ainda amanhecera nublado, parecia representar o luto fechado para a cidade que serviu de berço e de sepultura ao jovem que a morte arrebatara abruptamente, deixando toda a população de sua terra natal mergulhada na mais profunda tristeza.
            Devido ao inesperado temporal, a estrada que liga aquela cidade à capital ficou alagada em diversos trechos e completamente intransitável em outros, em virtude do trasbordamento de rios e riachos que margeiam a estrada, obrigando Célia e seus acompanhantes a permanecerem na cidade até que a situação fosse normalizada. Mas, mesmo recuperada a estrada, Célia resolvera ficar para a missa de sétimo dia.
Todavia, talvez por não ter se protegido convenientemente do temporal no dia do sepultamento, na antevéspera do dia da missa, foi ela tomada de febre altíssima, chegando a quarenta graus, visto que havia contraído a febre tifóide, sendo imediatamente transferida para a capital para o necessário tratamento que deixou-a no leito por quarenta dias, findo os quais seus cabelos haviam caído em grande parte pelo efeito da elevada febre.  Felizmente, pouco-a-pouco sua saúde foi se restabelecendo, graças à competente assistência que lhe foi dispensada.
            Quando da missa de trigésimo dia, por ainda estar hospitalizada, não lhe foi possível ir à igreja, porém não deixando de fazer as costumeiras preces pelo descanso da alma do saudoso amigo; e até tornou-se devota de santa Terezinha para melhor encaminhar suas preces para quem jamais pensara ter amado, porém sem ter avaliado o significado desse amor agora tão arraigado, razão pela qual haveria de dedicar-se à pobreza desamparada, para o que se fez membro de uma ordem religiosa, embora sem o uso do hábito monástico.
            Quando completamente restabelecida, Célia contava que durante o período de sua enfermidade havia sonhado diversas vezes com o seu ex-namorado Manuelito, que no sonho lhe dizia que preferira a morte a viver sem ela.  Também lhe dissera que ela seria curada da doença contraída, mas que tivesse redobrados cuidados, pois a recaída lhe seria fatal.
E na sua nova vida de religiosa dedicou-se ao dispensário São José, num dos subúrbios da capital, onde passou a se preocupar exclusivamente com os velhinhos protegidos pela Associação de Caridade Santa Luíza de Marilac e às crianças órfãs... até o ano de 1952, quando numa manhã do mês de Maria, mais precisamente no dia 31 de maio daquele ano, não mais sentiria ela as lágrimas desta vida de tantas ilusões, pois fora encontrada sem vida em sua mesa de trabalho, tendo nas mãos o seu diário, onde se podia ler lindos poemas e canções dedicados a quem por ela morreu de amor, sendo o último poema ali transcrito: “Se se morre de amor”, de um dos gênios da poesia – Gonçalves Dias, que por sua beleza merece ser aqui também transcrito:

“Se se morre de amor! – Não, não se morre
Quando é fascinação que nos surpreende
De ruidoso sarau entre os festejos;
Quando luzes, calor, orquestra e flores
Assomos de prazer nos raiam n’alma,
Que embelezada e solta e tal ambiente
No que ouve, e no que vê prazer alcança.
Simpáticas feições, cintura breve,
Graciosa postura, porte airoso,
Uma fita, uma flor entre os cabelos,
Um quê mal definido, acaso podem
Num engano d’amor arrebatar-nos.
Mas isso amor não é; isso é delírio,
Devaneio, ilusão, que esvaece
Ao som final da orquestra, ao derradeiro
Clarão, que as luzes do morrer despedem;
Se outro nome lhe dão, se amor o chamam,
De amor igual ninguém sucumbe à perda.
Amor é vida; é ter constantemente
Alma, sentidos, coração – abertos,
Ao grande, ao belo; é ser capaz de estremos,
De altas virtudes, até capaz de crimes!
Compreender o infinito, a imensidade,
E a Natureza e DEUS; gostar dos campos,
Das aves, flores, murmúrios solitários;
Buscar tristezas, a soledade, o ermo,
E ter o coração em riso e festa;
E à branda festa, ao riso da nossa alma
Fontes de pranto intercalar sem custo;
Conhecer o prazer e a desventura
No mesmo tempo, e ser no mesmo ponto
O ditoso, o misérrimo dos entes;
Isso é amor, e desse amor se morre.
Amar, e não saber, não ter coragem
Para dizer que amor em nós sentimos;
Temer que os olhos profanos nos devassem
O templo onde a melhor porção da vida
Se encontra; onde avaros recatamos
Essa fonte de amor, esses tesouros
Inesgotáveis, de ilusões floridas;
Sentir, sem lhe ouvir, seus pensamentos,
Segui-la, sem poder fitar seus olhos,
Amá-la, sem dizer que amamos,
E temendo roçar os seus vestidos,
Arder por afagá-la em mil abraços;
Isso é amor, e desse amor se morre!
Se tal paixão porém enfim transborda,
Se tem na terra o galardão devido
Em recíproco afeto; e unidas, uma,
Dois seres, duas vidas se procuram,
Entendem-se, confundem-se e penetram
Juntas – em puro céu de êxtases puros;
Se logo a mão do fado as torna estranhas,
Se os suplica e espera, quando unidos
A mesma vida circulava em ambos;
Que será do que fica, e do que longe
Serve às borrascas de ludíbrio e escárnio?
Pode o raio num píncaro caindo,
Torná-lo dois, e o mar correr entre ambos;
Pode rachar o trono levantando 
E dois cimos depois verem-se erguidos,
Sinais mostrando da aliança antiga;
Dois corações porém, que juntos batem,
Que juntos vivem, - se os separam, morrem;
Ou se entre o próprio estrago inda vegetam.
Se aparência de vida, em mal, conservam,
Ânsias cruas resumem o proscrito, -
Que busca achar no berço a sepultura
Esse, que sobrevive à própria ruína,
Ao seu viver do coração, -  às gratas
Ilusões, quando em leito solitário,
Entre as sombras da noite, em longa insônia,
Devaneando, a futurar aventuras,
Mostra-se e brinca apetecida imagem;
Esse, que à dor tamanha não sucumbe,
Inveja a quem na sepultura encontra
Dos males seus o desejado termo!
           
Tudo fazia crer que Célia morrera ao terminar a transcrição do poema, pois na sua mão direita, tendo entre os dedos a caneta, esta ficara fixa no ponto de exclamação, final do divino poema.
Pela presente narração conheça-se uma das grandes emoções vividas pelo próprio autor, personagem do enredo com o nome de Jáder. 
                                                                                                         

  José Augusto de Oliveira

NEM TUDO FOI CARNAVAL

            O carnaval nem sempre é a expansão máxima de diversão, pois muitos aproveitam essa festa para demonstrar sua gratidão por alguma coisa que lhes faz vibrar a alma e palpitar o coração.
            Quem teve a oportunidade de ver algumas das escolas de samba desfilarem pela cidade nos dias de carnaval do ano de 1958, certamente pôde observar  algo que despertou curiosidade entre os espectadores, mormente naqueles que se sensibilizam quando na alma penetra o sentimento que faz lembrar as coisas que mais amamos.
            Foi o que aconteceu com uma das escolas de samba do Morro do Salgueiro, cujo motivo versou sobre a nossa Marinha, como se desejasse externar todo o nobre sentimento que a humilde gente do morro sabe muito bem demonstrar.
            Sim, essa gente humilde mas sincera dos morros, de onde se pode ver o horizonte mais além, pode ver também a qualquer momento, que surto no porto ou se fazendo ao mar, navios da nossa esquadra e sentir a emoção da tranqüilidade em que vivem proporcionada por aqueles que dedicam horas, dias, meses e anos em constante luta para o conforto e o bem estar do Brasil.
            Essa gente do morro que sofre, sabe muito bem avaliar o que é sofrimento; e ninguém melhor que ela pode sentir o desprezo que lhe dá a sociedade, que melhor podia prestar-lhe assistência e conduzi-la a uma situação menos angustiosa... mas que também é esquecida ou mesmo desprezada.
            Sabe ainda essa gente humilde que na vida nacional há também alguma coisa ainda esquecida: a nossa Marinha; e por isso é que buscou nessa coisa esquecida o motivo para desagravar as injustiças que se lhe faz também essa mesma sociedade.  Então, como justa homenagem, fez sentir ao povo que a nobreza de sentimento da gente do morro se constitui em potencial de estímulo a quantos tenham pela Pátria inteira devoção.
            Mas, a sociedade não compreende que é mais humilde que o mais humilde habitante dos morros, porque na verdade o morro tem sob seus pés o luxo e a riqueza; e a sociedade que os desfruta nem sequer percebe que está em nível bem inferior em termos de altura, como também, inconsciente de que a vida é efêmera e passageira.
            E dos morros, onde o panorama de visão é mais amplo, sua gente cheia de fé e de esperança tem sempre os olhos voltados para os que defendem seus direitos e lhe garantem a tranqüilidade, embora sejam também esquecidos... mas no coração da gente do morro sempre encontrarão abrigo.
            Foi por isso que o Morro do Salgueiro, com sua escola escolheu como tema a Marinha; e sua gente garbosa, com uniformes galantes e bem semelhantes, em termos, aos da Marinha, foi às ruas para mostrar que na vida de uma nação as coisas mais sagradas são sempre as mais esquecidas... senão desconhecidas.
            Quem desconhece que o ouro que adorna as ilustres dama da sociedade não vem do asfalto, e sim do agreste?  E por isso deixou de ser precioso?  Não!
            Também essa gente humilde, mas sincera, não vive em ricos palacetes nem em luxuosos apartamentos, mas na rudeza dos morros, desprovidos de qualquer conforto, tendo apenas como cenário as belas paisagens da Natureza, além do céu e do mar.
            No céu, tem como inspiração a música, que só sua gente sabe interpretar; e no mar, a tranqüilidade e o pouco de felicidade que desfruta, porque para tanto sabe que ali se encontram os verdadeiros irmãos abnegados que tudo dão em troca de nada em permanente vigília, vencendo incertezas para o bem estar da sociedade e a tranqüilidade da Nação.
            À gente humilde, mas sincera dos morros, que no decorrer do tríduo de Momo homenageou a nossa esquecida Marinha, a eterna gratidão de seus marinheiros e a certeza de que sempre nos vislumbram seus humildes casebres nos morros, pois parecem refletir-se com mais nitidez à nossa vista, sempre que contemplamos os seus cenários.
            Portanto, admiramos os morros, pois neles vivem milhares de verdadeiros brasileiros contritos e resignados, mesmo desprezados pela sociedade, retratando a fibra de uma raça que não se deixa vencer pela adversidade.
            E se por ventura um dia o brado de alerta se fizer ouvir, sois como sentinelas atentas; e dos morros hão de descer aqueles que ajudarão a Nação subir.

                         Homenagem ao Salgueiro no carnaval do ano de 1958.
 José Augusto de Oliveira

NENÉM FARDADO NA PENSÃO
  
            Dizer-se que em nosso tempo havia marinheiros ingênuos, pode até parecer piada, porém não é exagero.
            Vejamos a história verídica que a seguir passo a narrar.
            Por ocasião da Segunda Guerra Mundial, a Marinha não somente convocava como aceitava voluntários, sem se levar em conta os marinheiros procedentes das diversas Escolas nos Estados.
            Mas, em Natal - capital do Rio Grande do Norte, era o ponto estratégico para a Marinha do Brasil, considerando a existência de uma base naval e de um centro de treinamento.
            E foi justamente naquele centro de treinamento que se apresentou o marinheiro personagem deste episódio.
            Por ter sido um dos maiores e melhores amigos, todavia deixo de revelar seu nome, muito embora o fato não seja assim tão impróprio.  Mas deixo de fazê-lo porque este personagem já é falecido.
            Durante o tempo em que estivemos no serviço ativo servimos por duas vezes na mesma comissão.  E quando na reserva voltamos a trabalhar na Superintendência do Desenvolvimento da Pesca - SUDEPE, onde foi ele uma verdadeira muralha contra os corruptos e as fraudes que ali eram praticadas sistematicamente, mesmo depois da Revolução.
            Apesar de ser ele filho de juiz, contudo sua família por ser honrada também sofria as mesmas dificuldades.  E como seu genitor não podia custear seus estudos por ser a família numerosa, não houve qualquer objeção para seu ingresso na Marinha, como voluntário, ali mesmo em Natal, terra natal do nosso focalizado.         
            Tinha ele então pouco mais de 16 anos, embora já bem desenvolvido para aquela idade.  Mas para ingressar na Marinha só após completar 17 anos, obrigando-o a fazer novo registro de nascimento com idade aumentada.
            Dois meses depois, no ano de 1944, estava ele recebendo fardamento e pela primeira vez fazendo seu batismo de fogo na vida boêmia, que conhecia apenas por informação de colegas mais velhos de sua época.
            E quando da sua primeira ida a uma das muitas pensões então existentes em Natal, freqüentadas quase que exclusivamente por marinheiros americanos e brasileiros e muito pouco civis, visto que a militares das outras forças não era permitida a freqüência, eram os marinheiros brasileiros os privilegiados, muito embora o poder aquisitivo do marinheiro americano fosse superior ao dos nossos marujos.
            O seguinte diálogo aconteceria justamente com a dona da pensão, que apesar de muito jovem já contava mais horas de cama acima do que se podia imaginar; e em tais circunstâncias seu maior interesse era faturar com a presença das outras mulheres jovens, as quais explorava no lenocínio, pouco se importando em se insinuar para algum “cliente”.
            Todavia, quando da chegada inesperada daquele garoto uniformizado de marujo, sua atenção foi despertada e sentiu interesse pelo “neném fardado”,  como ela mesma o chamava.
            Como o marinheiro não soubesse o nome das mulheres, inclusive o da dona da pensão, logo procurou inteirar-se do nome desta última perguntando a uma das mulheres, que assim lhe respondeu: - Aqui ninguém sabe o nome de ninguém, e se chamar “puta” um pouco mais alto, quem escutar vai se virar para saber se o chamado é para ela.
            A dona da pensão tratou logo de levar o marujo para os aposentos dela para que não fosse “atacado “ pelas suas “funcionárias”.
            Já no quarto da sua “protetora”, foi-lhe oferecido bebida, que prontamente foi rejeitada, uma vez que o novel marinheiro jamais ingerira bebida alcoólica, preferindo suco de frutas ou refrigerantes, no que logo foi atendido, pois o interesse maior da cafetina era conquistar-lhe a confiança.
            Como era a primeira vez que deixava de ir para casa dos pais, achou ele por bem não chegar muito tarde; e quando consultou seu relógio e viu que marcava 23:00 horas, apressou-se em ir embora, mesmo recebendo o tratamento especial, pois a cada instante a mulher ia ao quarto levar-lhe sucos, refrigerante, cigarros, etc., talvez preparando sua presa para o banquete que só poderia acontecer lá pelas 04:00 horas, quando eram encerradas as atividades da pensão.
            De repente, na mais pura e santa ingenuidade deixa ele os aposentos onde se encontrava e vai à procura da proprietária da pensão que naquela ocasião estava numa roda de marinheiros americanos e brasileiros, quase todos “abarracados” com suas companheiras bebendo tranqüilamente.
            A mulher procurada sequer notou a chegada do seu marujo, só lhe dando atenção quando ele lhe dirigiu a palavras nestes termos: -”Dona puta”, a senhora que me dar o meu boné, pois está muito tarde e eu ainda não tenho chave de casa”!
            Entretanto, nada alterou o comportamento da marujada brasileira, pois então era muito comum  marinheiros imberbes e com idade abaixo dos 19 anos já servindo à Marinha.
            E para eles, aquele tratamento dado àquela mulher (a dona da pensão) era típico e comum, isto porque desconheciam a ingenuidade do colega que naquela noite vislumbrava um espetáculo diferente na sua pouca existência.
            No dia seguinte, por estar devidamente informada, foi a mulher ao Centro de Treinamento procurar o seu “neném fardado”, pois ele ali estava ainda em fase de treinamento para as atividades profissionais.  Porém, não demorou muito para completar o curso de sacanagens, pois apesar de ser bem mais moderno que eu na Marinha, pude com ele aprender até o pulo do gato.
            A história aqui narrada foi-me contada por um colega do focalizado que, como ele, ingressou na Marinha também como voluntário e na mesma Base Naval de Natal.
            Como entre mim e ele (o focalizado) havia muita intimidade, quando em vez eu me referia a este episódio, que cheguei a contar a seus familiares (mulher e filhos) o que lhe acontecera no início de sua vida como marinheiro.
            Ele não confirmava e nem desmentia, limitando-se a rir, principalmente quando as filhas, de 15 e 13 anos na ocasião, repetiam  em tom de gozação: -” Dona puta”, me dá o meu boné...
            A esposa, uma das filhas (a mais nova) e a namorada do filho mais velho, tempo mais tarde seriam vítimas fatais de desastre de automóvel, o que deixou o querido amigo em permanente nostalgia, até que um dia ao tomar um ônibus caiu ao solo batendo com a cabeça no meio-fio e vindo a falecer.
            Portanto havia de ser ele um dos capítulos de Reminiscências Marinheiras ora vividas para prestar-lhe minha eterna gratidão e o preito de saudade de sua imorredoura memória.  
            Que DEUS o tenha no Seu Reino, bem como os seus queridos familiares!
  
José Augusto de Oliveira

O MARIDO QUE PASSOU A SER “CORNO”

            Quando servi a bordo do Encouraçado “Minas Gerais”, no ano de 1951, ali conheci um segundo-sargento de máquinas, já aparentando avançada idade, cabelos totalmente embranquecidos, contudo forte e bem disposto para esperar melhores condições de se transferir para a reserva.
            Costumeiramente, tratava ele os colegas sargentos, de “velha-guarda”, motivo porque jamais soube seu verdadeiro nome.
            Apesar de estar sempre com seu espírito brincalhão, quando em vez se mostrava nostálgico ou preocupado.
            Ao vê-lo em tal situação, os colegas procuravam ajudá-lo, até financeiramente, quando era o caso.
            Todavia, quando foi designado para integrar as guarnições dos cruzadores “Barroso” e “Tamandaré”, foi ele me procurar na secretaria do Comando da Esquadra para solicitar que seu nome fosse retirado da relação, pois estava com sério problema na família... E se não fosse possível ser atendido no seu pedido, teria que se transferir para a inatividade.
            Levei o fato ao conhecimento de quem de direito e seu nome foi cancelado da relação.
            Aconteceu que eu também fui incluído para compor a guarnição do cruzador “Tamandaré; mas antes de desembarcar para o navio TrT “Duque de Caixas”, que conduziria o pessoal para o porto de Filadélfia - USA, fui procurado pelo “velha-guarda”, como todos nós o tratávamos, que por entrar em gozo de férias se ausentaria de bordo antes do meu desembarque.
            E foi justamente no meu último dia de serviço no encouraçado “Minas Gerais”, coincidente também ser o dia de serviço do “velha-guarda”, que conheci os motivos pelos quais aquele colega não se sentia complemente feliz.
            Disse-me que sua família, constituída da mulher e de três filhas, nascidas seguidamente, então com 25, 24 e 23 anos, formadas e já casadas, cujos enlaces ocorreram no mesmo dia, conforme desejo das próprias filhas, era o principal motivo de sua preocupação.
            A mais velha se casara com  famoso médico cardiologista; a do meio, com oficial do Exército e a mais nova, com gerente do Banco do Brasil.
            Não poupava elogios às filhas, assim como a seus genros, fazendo exceção exclusivamente ao marido da filha mais nova, que, segundo ele, não tivera a mesma felicidade das demais irmãs, muito embora fosse a de melhor situação financeira.
            Lamentava, pois, por não saber o futuro dessa filha, a única que ainda não lhe dera neto, pois das duas outras filhas já tinha netos, sendo um neto da filha mais velha e uma neta da do meio.
            A mãe era a que mais estava sofrendo diante dessa situação da filha mais nova, inclusive já com a saúde bastante abalada.
            E visivelmente emocionado, não conteve as lágrimas, enquanto eu procurava consolá-lo, ao mesmo tempo querendo saber o que tanto o afligia com referência a sua filha mais nova, e o motivo de sua infelicidade.
            Foi quando, me pedindo que não o considerasse um homem sem fibra, me confidenciou: - O meu genro, marido de minha filha mais nova (disse o nome da filha) é muito bom, dá-lhe de tudo e do melhor; é o único que mora em cobertura na zona sul, mas, coitado - coisas do destino: “deu para ser corno”!
            Faltou-lhe, talvez, habilidade para dizer que a filha havia se prostituído.
  

José Augusto de Oliveira

O VELHA GUARDA QUE PRECISOU COMPRAR FIADO

           
            Tão logo se transferiu para a reserva ao final da Segunda Guerra Mundial, o cabo velho Mundico, que foi promovido a segundo-sargento por ter tomado parte ativa na Segunda Guerra Mundial, em comboios e patrulhamento da costa,  portanto considerado ex-combatente, sua idéia inicial era voltar para o Nordeste, mais precisamente para o interior pernambucano, no que não tinha o apoio da esposa, de quem afinal se separou para satisfazer seu desejo de voltar à sua terra natal.
            Como já estivesse separado da mulher, tratou logo de refazer sua nova família, animado que estava por estar sendo cortejado por uma moça de sua cidade, embora não estivesse ainda oficialmente desquitado, o que era do conhecimento da futura esposa, conseqüentemente casando-se apenas no religioso.
            Mas, para recomeçar a nova vida de casado se fazia necessário montar a casa, porém as economias que dispunha foi obrigado a gastá-las na aquisição de móveis, utensílios domésticos, etc., além de fazer uma dívida considerável e que iria exigir quase todo o seu pagamento mensal para satisfazer os compromissos assumidos, pelo prazo de dez meses, não lhe sobrando o suficiente para as despesas normais para o sustento da família.
            Por já ser conhecido dos comerciantes, principalmente porque satisfazia pontualmente seus compromissos, não lhe foi difícil conseguir crédito em um dos estabelecimentos de gêneros locais... e mesmo em consideração à sua mulher.
            Aconteceu que decorridos três meses sem que o Mundico liquidasse pelo menos uma parcela de suas dívidas, o proprietário do armazém mandou um de seus empregados avisar-lhe que o credito estava cortado, ensejando que o “velha guarda” fosse procurá-lo para dizer-lhe de sua situação... mas que seria temporária.
            O comerciante, todavia, não aceitou as desculpas, embora reconhecesse a difícil situação do sargento; tanto assim que resolveu cancelar parte da dívida, considerando-a paga, porém sem mais fornecer-lhe se não fosse com pagamento a vista.
            Mundico, entre constrangido e revoltado, naquele dia zanzou pela cidade o quanto pôde, se enchendo de coragem nos bares para poder voltar para casa... o que fez ao anoitecer.
            Infelizmente nada levava para o jantar;  e diante de tal situação resolveu com a mulher que no dia seguinte iria procurar um “bico”,  nem que fosse no mercado para fazer carregos ou limpeza nos boxes, contanto que ganhasse alguma quantia para ajudar nas despesas de casa, que estavam por conta do salário de sua mulher, enfermeira, que trabalhava no Posto de Saúde local, mas ganhando menos de dois salários.
            E para melhor mostrar sua revolta contra a humanidade, Mundico começou a dizer impropérios e a rogar pragas, indistintamente a quantos conhecia, principalmente para os cornos e ricos avarentos que não confiavam em sua palavra.  E para resumir, caiu de joelhos na cozinha, levando as mãos ao alto rogando a DEUS que fizesse chover torrencialmente para inundar a cidade, e assim matar todos os cornos, avarentos e miseráveis... possivelmente escapando muito poucos.
            Foi quando a mulher se pronunciou:
            - Querido, não rogue pragas a seus semelhantes.  Eu sei que você está revoltado e cheio de razão... como também sei que só está pedindo castigo dessa natureza porque  graças a DEUS não é avarento nem miserável ... e  sabe nadar!
  

José  Augusto de Oliveira

ORDEM UNIDA

        Durante a última Guerra Mundial, fatos deveras pitorescos aconteceram nos estabelecimentos e navios da Marinha, casos muitas vezes considerados simples piadas pela maneira como ocorriam ou mesmo pela divulgação destorcida ou alterada, como queiram.
            O certo é que eram passíveis de acontecer, considerando o nível intelectual de então até dos graduados, que entretanto foram excelentes profissionais que talvez hoje a Marinha se ressinta com a falta daqueles profissionais.
            Vejamos um fato que aconteceu em certa unidade da Marinha onde um cabo do quadro de Manobras e Reparos (MR) foi mandado servir por se encontrar em tratamento de saúde e com restrições para servir embarcado.
            Estando próximo o dia 7 de setembro, ocasião em que a Marinha sistematicamente participa do desfile militar, naquele ano o pessoal disponível era insignificante, embora em muitas outras unidades estivessem se apresentando voluntários e convocados que precisavam passar por certo período de treinamento e adaptação para as atividades, tanto profissionais quanto militares.
            Em tais circunstâncias o comandante da referida unidade viu-se obrigado a intensificar o treinamento do seu pessoal recém incluído nas fileiras, de modo que até a data do desfile o pelotão de desembarque de sua unidade estivesse em condições.
            Mas para tanto, se fazia necessário rigoroso treinamento na parte de ordem unida, mesmo que sacrificando outras atividades.
            O cabo MR, um dos poucos veteranos disponíveis naquela unidade, teria também de ser escalado para o treinamento do pessoal, não somente na sua especialidade, na qual era gênio, como na parte de ordem unida, nesta exigindo mais persistência em vista da exiguidade de tempo e a qualidade do pessoal recém incorporado.
            Uma formatura com cerca de 40 homens foi confiada ao cabo para a competente ordem unida, que pouco conhecia, se havia ingressado na Marinha, embora procedendo de uma escola de aprendizes, contudo fazia muito tempo.  Portanto o que aprendera então já havia esquecido, se sua maior preocupação era a parte profissional, tanto que por muitos anos foi instrutor de sua especialidade em escolas e centros de instrução profissionalizantes.
            Iniciou o cabo recebendo aquele grupo sem saber o que ministrar.  Então determinou inicialmente que o grupo marchasse no pátio em frente ao estabelecimento, justamente onde permanecia a oficialidade, indo e voltando sem que fosse observado sequer se o pessoal marchava certo e se mantinha o alinhamento.
            Casualmente o Comandante da unidade, do seu gabinete ficou a observar os movimentos desencontrados daquele grupo: e procurando inteirar-se se era uma formatura ou uma faina comum, tamanha era a desorganização da formatura, ele próprio não se contendo com o que estava observando determinou ao comandante do grupo:  - “Mande parar essa merda”!...
            E o cabo velho, sem se alterar, comandou: “Merda, alto”!



José Augusto de Oliveira

 TRATAMENTO PARA JUIZ

            Durante o período que trabalhei na Superintendência do Desenvolvimento da Pesca - SUDEPE, onde também trabalhavam outros colegas de Marinha, inclusive o Superintendente, eu mesmo testemunhei episódios pitorescos como o que a seguir será conhecido.
            Um dos colegas que ali trabalhavam, exercia o cargo de administrador do edifício, na Praça Quinze de Novembro, conseqüentemente com várias atribuições, inclusive a da área de estacionamento para os veículos da repartição e dos funcionários, sendo que para estes era necessário o cartão de permissão fornecido pela administração, com o visto do Diretor de Serviços Gerais.
            Um dia da semana, bem antes do expediente que começava às 09:00 horas, pelo menos para os funcionários de categoria, no estacionamento se encontrava um carro de luxo com placa de São João de Meriti e que não pertencia à administração nem a funcionários da casa, todavia sem o competente cartão de autorização.
            O guarda que assumia o serviço de vigilância no local às 08:00 horas, ao fazer a costumeira verificação anotou o luxuoso carro - Mercedes Benz, deixando no pára-brisas a notificação de ser o local privativo da SUDEPE e convidando seu proprietário para procurar o administrador em sua sala no segundo andar do prédio.
            Por volta das 16:30 horas aparecia na portaria da SUDEPE o proprietário do veículo querendo falar com o administrador, sendo então encaminhado à sua sala, onde não se encontrava.  Mas avisado da presença do proprietário do carro, foi falar com o cidadão, que nem o deixou falar e foi logo lhe dizendo “que desconhecia estacionamento privativo e que estacionava seu veículo ali sempre que se fizesse necessário”, mas sem se identificar
            A providência do administrador foi levar o cavalheiro à presença do Diretor de Serviços Gerais, em cujo encargo eu me encontrava na qualidade de Secretário da Superintendência da Pesca, por estar o seu titular em gozo de férias
            Já na sala do Diretor, o administrador deu conhecimento da ocorrência e da decisão do proprietário do veículo, o que já me preparou o espírito para melhor entabular a conversação com o cidadão.
            Dispensei a presença do administrador e convidei o cavalheiro a sentar-se no sofá, para onde também me encaminhei, enquanto fiz discreto sinal para a velha servente servir água e café.
            Minhas primeiras palavras foram: - Cavalheiro, em que podemos servi-lo!...  depois da apresentação de praxe.
            Com sua identidade em mãos, o cavalheiro identificou-se como juiz de direito da Comarca de São João de Meriti, dizendo que era obrigado uma vez por semana, às  quartas-feiras, a se deslocar do seu município para o do Rio de Janeiro por ministrar aulas em uma faculdade em Niterói; sendo, portanto, obrigado ao uso do transporte marítimo e necessitando, conseqüentemente, de local para estacionar seu veículo (na época não havia ainda a Ponte Presidente Costa e Silva).
            Já saboreando o cafezinho, depois da água mineral bem gelada que lhe foi servida, parecia mais calmo; tanto que a conversa foi em termos corteses de ambas as partes.
            Sabendo então de quem se tratava, chamei o administrador e determinei-lhe que providenciasse um cartão de estacionamento especial para o Sr. Juiz, cujos dados foram por mim mesmo anotados para não haver omissão de dados e nem atraso na remessa do cartão através de ofício.
            No dia seguinte, quando cheguei à sala do Diretor já encontrei a minuta do ofício feita pela secretária do administrador e o cartão de estacionamento em condições.  Todavia o tratamento empregado no ofício era o comum, razão pela qual alterei os termos e determinei à secretaria do Diretor que datilografasse o ofício com mais uma cópia para ser encaminhada para a administração.
            No mesmo dia o expediente foi encaminhado ao destinatário e a cópia ao administrador, que ao ler e observar a alteração nos termos do tratamento, foi comentar com outro colega - Diretor do Departamento do Material, alegando que eu sempre queria ser mais importante que os outros e que não aceitava a colaboração dos colegas, referindo-se ao ofício.
            O Diretor do Material, amigo de todos, sem distinção, todavia muito gozador, pois bem conhecia meu escrúpulo em se tratando de correspondência externa, simplesmente lhe disse: - Você esqueceu de colocar o “Meritíssimo”, talvez porque nem observou que o cidadão é juiz e é do Município de São João de Meriti!...
            - Tem razão.  “Eu sou mesmo uma besta”, assim disfarçou sua ignorância!.
            Dias mais tarde chegava às mãos do administrador um outro pedido de cortesia para o Juiz de Duque de Caxias, que como seu colega de São João de Meriti ia lecionar na mesma faculdade de Niterói em substituição a este.
            Foi quando voltou o administrador a procurar o mesmo colega Diretor do Departamento do Material para confidenciar-lhe: - “Sinceramente, no ofício ao juiz de São João de Meriti a burrada foi minha, um simples lapso!.  Mas,  dou a mão à palmatória.  Tratamento para juiz de Caxias, eu confesso que não sei mesmo!



José Augusto de Oliveira

“VIDE VERSO”

                Quando da última grande Guerra Mundial, na qual o Brasil participou ativamente, a partir de 31 de agosto de 1942, quando foi declarada guerra aos países do eixo, na ocasião a Marinha, a exemplo do Exército e da Aeronáutica, também convocava pessoal extra para preencher os claros nas unidades de terra, que cediam seus já experimentados graduados e marinheiros para guarnecerem os navios que então se empenhavam nas diversas missões, principalmente em comboios e no patrulhamento do atlântico.
            Nessas condições, o pessoal convocado, na sua maioria pescadores ou de outras profissões marítimas, nem sempre tinha instrução suficiente, embora fosse excelente profissionalmente.
            Todavia, passado o período de adestramento, cerca de aproximadamente seis semanas, alguns desses convocados eram promovidos à graduação de 3º e 2º sargentos, embora sem terem os mesmos conhecimentos dos seus colegas que tiveram suas promoções sucessivas, mediante exames de habilitação, cursos de especialização, aperfeiçoamento ou similares.
            Em resumo: eram verdadeiros paisanos fardados, que entretanto satisfaziam as necessidade de algumas especialidades, embora deixando muito a desejar, sem contudo serem embarcados nos navios de guerra, onde o conhecimento de todas as especialidades ainda hoje deve ser imperativo.
            Foi na então Base da Defesa Flutuante - Ilha do Mocanguê, que um desses sargentos no seu primeiro serviço, depois de acompanhar por algumas semanas os trabalhos normais da Base, fazia seu batismo de fogo, porém acompanhado de um cabo bastante experiente, que se empenhava o máximo para orientar seu superior hierárquico, que mal entrava na Marinha já era segundo-sargento, enquanto o cabo, somente na graduação tinha 12 anos; mas por dever militar tinha que passar seus conhecimentos ao recém promovido sargento.
            À noite, depois da ceia, por volta das 19:30 horas, seguindo-se a rotina, foi determinado o toque de reunir para conferência do pessoal de serviço, bem como se verificar a presença dos que estivessem cumprindo penas disciplinares, assim como os dispensados de serviços com a determinação de não poderem baixar a terra.
            Dado o pronto e apresentada a formatura ao mais antigo, no caso o segundo-sargento contramestre, este depois de anunciar que faria a chamada pelo nome de “guerra”, a praça chamada deveria responder pelo seu número de divisão, e não dizendo “presente”, “pronto”, etc.
            Feita a advertência inicial, o sargento começou a fazer a chamada, e os que não respondessem teriam seus nomes anotados para uma verificação posterior.
            E sempre que uma praça era chamada e não respondia de imediato, a chamada era repetida pelo menos mais duas vezes.
            Mas quando já estava mais ou menos no meio da tarefa, casualmente o sargento notou que o comandante da unidade, juntamente com alguns oficiais, estavam na varanda observando sua atuação, não para fazer qualquer avaliação, pois sabia que aquele sargento, assim como tantos outros que serviam sob seu comando, foram “pegados no laço”, como se referiam os veteranos que iniciaram a vida militar na Marinha oriundos das escolas de aprendizes, mas talvez por simples coincidência ou curiosidade.
            Foi então que o sargento começou a recomendar o pessoal que estava em formatura para que se mantivesse com postura, pois estavam em posição de “descansar” e não “à vontade”.  Depois de mais essa recomendação recomeçava a chamada, até que chegando ao fim da primeira folha, lia-se a recomendação de continuar a leitura com a expressão “vide verso”.
E  terminada a leitura do último nome, o sargento ao invés de observar a recomendação (vide verso) e virar a folha para continuar a leitura dos nomes, na mesma entonação de voz, como se estivesse fazendo a chamada, leu a recomendação vide verso; e como ninguém respondesse, permanecendo o silêncio, por mais duas vezes foi chamado o “vide verso”. Então, voltando-se para o cabo auxiliar determinava que anotasse aquela “ausência”
            Discretamente o cabo auxiliar falou-lhe ao ouvido: “Sargento, vide verso é para o senhor virar a folha e continuar a chamada dos nomes nas costas do papel”.
            Mas, o sargento não alterou sua conduta.  Simplesmente assim se pronunciou: “Última forma no nome que acabei de chamar.  Lembrei-me que ele teve autorização para baixar a terra, pois nasceu seu primeiro filho”.     
            Nem seria necessário dizer que a marujada não se conteve, assim como os próprios oficiais que presenciaram o fato do local onde se encontravam.
            Felizmente ele teve a iniciativa de passar a formatura ao cabo-auxiliar para ir queixar-se ao oficial de serviço, que já estava a par da  “emenda pior que o soneto” feita pelo sargento, que foi dispensado do serviço, enquanto se podia ouvir em todos os cantos da Base a gozação generalizada de: “vide verso”, talvez até mesmo entre a oficialidade.
            No dia seguinte o sargento desembarcava para servir em outra OM para não continuar sendo motivo de chacota ou glosado por seus colegas e pela marujada, principalmente,  que jamais perdia menor que fosse a oportunidade para fazer gozação, fosse mesmo com a oficialidade, embora com reserva e prudência.



José Augusto de Oliveira

MADAME,  A SENHORA JÁ VIU O JAÚ?
           
            Quando no ano de 1927 chegava ao Rio de Janeiro o hidroavião “Jaú”, no qual João Ribeiro de Barros realizou a primeira viagem aérea Gênova-Santos (1926-1927), a referida aeronave então era considerada a verdadeira atração, por ser então o maior hidroavião do mundo, razão porque milhares de curiosos se interessavam em conhecê-lo.
         A permanência da aeronave no Rio de Janeiro revolucionou a Capital Federal que era então, se todos os segmentos da sociedade se interessavam em conhecer o gigantesco pássaro.
         Nas ruas, ou mesmo nos locais de trabalho, a interpelação era sempre a mesma: “Você já foi ver o Jaú”?...  O assunto dominante era a presença da aeronave, enquanto a mesma permaneceu no Rio de Janeiro.
         A notícia não  podia deixar de ser do conhecimento do marinheiro Flamarion,  sempre atento a todos os acontecimentos da vida nacional, motivo para que programasse sair de bordo com a intenção de ir até a Praça Quinze de Novembro para ver, ainda que de longe,  o avião que se encontrava amerissado nas imediações do atual aeroporto Santos Dumont.
         Mas, chegando ao Ministério, Flamarion encontrou-se com um colega de escola do qual há mais de dez anos não tinha notícias...  E a alegria do inesperado encontro fez até que ele esquecesse que a finalidade de ter baixado a terra naquele dia fora tão somente para ver o “Jaú”.
         Depois de comemorarem o encontro consumindo muitas garrafas de cerveja, já tarde da noite é que lembrou-se do seu compromisso para com ele mesmo.  E por ser quase vinte e duas horas, resolveu dormir numa hospedaria para no dia seguinte levantar-se mais cedo para ter tempo de ir ver a aeronave antes de voltar para bordo.  Porém, por lapso do estalajadeiro, o marinheiro não seria despertado na hora determinada, conseqüentemente levantando-se e vestindo o uniforme apressadamente, sem tempo sequer para lavar o rosto, pois não podia e nem devia perder o bonde que religiosamente passava às 06:00 horas na rua Sacadura Cabral com destino ao Arsenal de Marinha, onde tomaria outro que o levasse à Praça Quinze.
         A pressa era tanta que sequer atentou para abotoar convenientemente  a braguilha, ficando à mostra as cuecas... e algo mais, e muito à vontade sentou-se no primeiro banco do bonde em que se viajava de costas. E à sua frente se encontrava uma senhora acompanhada de mocinha adolescente, que ao deparar com o cenário ficou procurando esconder o rosto no ombro da sua acompanhante, que também já havia atentado para o detalhe, todavia preocupada apenas com a mocinha que a acompanhava.
         Flamarion notando que tanto a mocinha quanto a senhora inesperadamente ficaram perturbadas, querendo ajudá-las procurou entabular conversa com a senhora perguntando-lhe se ela estava se sentindo bem... porém sem que nada lhe respondesse.  Fez nova tentativa, desta feita fazendo-lhe a seguinte pergunta: “Madame, a senhora já viu o “Jaú”?...
         A senhora, já se aproximando do extremo do banco como se tencionasse descer na primeira parada, como aconteceu, ainda teve tempo de responder-lhe:
         - “Não vi e nem quero ver;  e se o senhor botar prá fora eu taco a sombrinha na cabeça dele”!
         Flamarion, sem entender a reação da senhora, tratou de saltar primeiro, antes das outras duas passageiras, ocasião em que um dos marinheiros que estavam no ponto do bonde, observando o desalinho do uniforme do colega, fez-lhe saber que  ele estava com o “armarinho” aberto e a “peruca” de fora.
         Foi quando ele  entendeu o porquê da perturbação da senhora e talvez de  sua filha, como parecia, desistindo de prosseguir seu intento de ver o avião, porque se sentira envergonhado pela sua conduta, embora involuntária.
         E para consolar a si mesmo, resolveu ir de imediato para bordo; e no percurso falava com seus botões (não os da braguilha): eu sou é marujo e não “araújo”!...
         Quem me narrou este fato, afirmava ter conhecido o  personagem que foi o protagonista desta narrativa. Se verdade ou não, pelo menos é folclórica.
  

José Augusto de Oliveira

A CAPA FANTASMA

            No Posto de Comando da Defesa Flutuante, base das lanchas de patrulha da barra do Rio de Janeiro, sediado na Escola Naval, mas com comando independente, ali serviu comigo o marinheiro cuja história, verídica, vou narrar, sem contudo mencionar seu nome, preferindo identificá-lo por “Gago”, como era carinhosamente conhecido desde a Escola de Aprendizes Marinheiros de Angra dos Reis.
            Apesar de ser um dos poucos marinheiros de exemplar comportamento e cumpridor assíduo de seus deveres, contudo tinha suas aventuras amorosas de maneira muito discreta, sendo também um dos poucos que moravam em terra, no bairro de São Cristóvão, para onde se dirigia sempre que estava de licença.
            Inesperadamente o Gago adquiriu uma capa preta, de tamanho exagerado, pois cobria até seus pés, além de ser muito mais larga que o necessário.
            Diziam seus amigos mais íntimos, notadamente o marinheiro Walter, que era para esconder sua namorada e levá-la para o quarto nos dias chuvosos, quando era oportuno o uso da capa misteriosa.  Aventou-se mesmo que ele mandou quebrar a lâmpada do poste que ficava justamente em frente a seu quarto para facilitar suas aventuras.
            O cômodo da casa que o Gago ocupava era justamente a sala de frente, contíguo ao quarto do casal (sem filhos) que alugava aquela dependência para ajudar no aluguel.
            E o por quê da capa grande e larga?  Porque quando chovia, principalmente se à noite, ele vestia a capa e ia ao encontro da namorada que morava nas imediações e a conduzia, dentro da mesma capa, para o “matadouro”, como era chamado o local.
            E sua aventura durou mais do que ele mesmo podia esperar.
            O seu senhorio já havia descoberto dois pares de pegadas certa noite chuvosa em que o Gago chegou, como de costume, conduzindo seu fardo, pois saindo para comprar cigarros, observou na entrada duas pegadas muito menores, além das que seriam normais.  Todavia ficou na moita e nada comentou com sua mulher, pois o seu inquilino sabia de suas aventuras... conhecendo uma delas.
            Certa noite em que desabou inesperado temporal pegando todos de surpresa, aproveitou-se Gago para mais uma aventura, não considerando mesmo a observação da senhoria de que a chuva era muito forte, alegando que havia marcado encontro com um amigo em sua própria casa e não havia de deixá-lo esperando, muito embora pudesse justificar-se.
            Mas essa saída em tais circunstâncias, despertou suspeita na senhoria, que naquela noite ficou de atalaia esperando a volta do seu inquilino.
            Como de costume e sabendo que seu marido nunca chegava em casa antes da meia-noite, apagou todas as luzes, mas ficou sentada na cozinha ouvindo rádio com volume baixo.  E quando sentiu que a porta foi aberta, esperou uns cinco minutos e foi bater na porta do quarto de seu inquilino pretextando levar-lhe café quentinho.  Embora não conseguisse deparar com a moça no quarto, pois fora escondida no guarda-roupas, contudo, as pegadas no soalho eram mais que suficientes para ser confirmado o que ela desconfiava.
            No dia seguinte foi-lhe dada ordem de despejo, no que o senhorio nem tomou conhecimento, pois os problemas da casa eram sempre  resolvidos pela mulher.
            Tão logo o Gago conseguiu alugar outro quarto, seus amigos se prontificaram a ajudá-lo na mudança, ocasião em que foi descoberto que o seu guarda-roupa não tinha fundo e se localizava justamente na porta de ligação com o quarto do casal; e no fundo do móvel podiam ser vistas marcas de calçados de borracha e a inscrição good year, marca conhecida então de chinelos de borracha, idênticas aos usados pelo marujo inquilino e com a mesma cor da cera com a qual era encerado o cômodo.
            Desculpando-se, Gago tentou justificar que o móvel não lhe pertencia e que lhe fora emprestado pela senhoria, mas estava propenso a comprá-lo se a senhoria quisesse vendê-lo, ocasião em que a senhoria aparecia para fazer-lhe esta proposta: “Se você vai se mudar, por que não me vende este guarda-roupas que parece muito grande para você que é solteiro, e adquire um outro menor, mesmo usado?...
            Foi aí que o Gago ficou ainda mais gago e não teve como não revelar a verdade.
            Contou-nos que tão logo foi morar ali, dias depois começou a ser assediado pela senhoria, que se aproveitando da ausência do marido transava com ele.  E que para não ser pegado de surpresa se o marido chegasse inesperadamente, foi feita a passagem secreta através do guarda-roupas, cujo fundo fora apenas afastado e em condições de ser reposto se necessário fosse... felizmente sem nunca ter sido necessário.
            A senhoria apesar de ser coroa era bonita e sensual, porém muito ciumenta, razão porque não hesitou em expulsar seu inquilino quando descobriu suas aventuras com as rivais.
            Foi a própria senhoria quem se encarregou de arranjar quem fizesse a mudança do Gago, pois ali chegava um português com seu “burro sem rabo” para fazer o transporte dos pertences dele, porém os livros seriam transportados em taxi, tanto era o zelo do colega com seus livros.
            Naquele tempo o marinheiro que se prezava não freqüentava locais suspeitos e muito menos o baixo meretrício, preferindo conviver com famílias que alugavam quartos e davam preferência a marinheiro pela pontualidade de pagamento, principalmente.
            E muitos marinheiros que passaram por tal situação chegaram mesmo a casar-se com filhas dos seus senhorios e tiveram sucesso.
            Hoje o nosso focalizado vive sua vida de reformado, pai e avô, todavia sempre é gozado quando há o encontro com seus antigos colegas.  

José Augusto de Oliveira

ATO DE “HEROÍSMO”

            Durante a Segunda Guerra Mundial, a entrada do porto do Rio de Janeiro era limitada por grande rede de cabo de aço, sustentada por bóias de minas submarinas desativadas e outros dispositivos flutuantes que garantissem a flutuabilidade da rede, que descia a certa profundidade, impossibilitando assim a entrada submersa de submarinos inimigos.
            Era do domínio geral, inclusive na própria Marinha, que a rede que ia da Escola Naval ao meio do canal, com um vão livre de quarenta metros, saindo outra parte da rede para a ilha de Boa Viagem, era toda minada; e qualquer navio que se chocasse com a mesma estaria sujeito a explodir.
            Nessas circunstâncias, o vão livre era demarcado com bóias luminosas: uma preta, com lampejos brancos e outra vermelha, com lampejos vermelhos a curtos intervalos, que ao anoitecer eram apagadas, impossibilitando assim o canal à navegação a navios de grande e médio porte.
            Somente barcos de pesca e os navios de pequena cabotagem tinham trânsito livre a qualquer hora, sendo que à noite, ao transporem a rede, deviam se identificar com a lancha-patrulha.
            Se acaso qualquer navio mercante nacional ou estrangeiro tivesse que transpor a rede flutuante minada, como era conhecida, o Comando Naval do Centro determinava para que as luzes das bóias fossem acesas, sendo logo apagadas após a passagem do navio, inclusive os de guerra, que freqüentemente entravam ou saíam à noite para a formação dos comboios fora de barra.
            Um domingo do mês de outubro, logo depois que fomos rendidos na patrulha, por volta das 08:00 horas, regressava a nossa lancha-patrulha à sua base, na Escola Naval, cuja tripulação estava ansiosa por um banho, trocar de uniforme e baixar a terra, pois era um domingo de sol intenso, portanto nada melhor do que pegar uma praia, programação já combinada durante o serviço.
            O destino seria a praia de Ramos, então a mais procurada pelos moradores da zona Norte e demais subúrbios da Central e da Leopoldina.
            O almoço seria na residência de um dos colegas integrantes da guarnição da referida lancha, de prefixo LP-5.
            Entretanto, quando nos preparávamos para o banho, pelo fonoclama se ouviu a ordem para a guarnição da lancha LP-5 comparecer ao cais em acelerado  E em menos de cinco minutos a lancha já estava guarnecida para cumprir as determinações recebidas pelo mais antigo.
            É que na orla da praia de Icaraí, dera à praia uma “mina” desgarrada da rede, deixando os banhistas em pânico e bem distantes da água, pois já havia até cordão de isolamento, assim como destacamento do Exército, além da presença da Polícia Militar... e até de escoteiros, impedindo a aproximação de curiosos, principalmente dos que estavam de posse de máquinas fotográficas e que se mostravam mais indóceis e dispostos a qualquer “perigo”  para uma foto para a posteridade.
            A mina que tanta agitação ocasionou aos banhistas, era apenas uma das bóias de sustentação da rede já mencionada que se desprendeu e foi dar àquela praia.
            A lancha LP-5 que deixou o cais da Escola Naval por volta das 08:45 horas, por ser muito veloz, em menos de dez minutos chegava ao local onde a bóia rolava na areia, levada e trazida pela maré, cuja arrebentação naquele dia era muito violenta, portanto impossibilitando a aproximação da lancha, que ficou afastada da praia, onde a arrebentação era mais intensa.
            Aí a “sobra” foi para mim, por ser o mais moderno, e que além de ter que nadar da lancha à praia, ainda conduzia um cabo de cerca de trinta metros para enlaçar a bóia (ou a mina, se assim preferirem) e a lancha tentar rebocá-la.
            Como a maré estava de enchente, a chegada à praia foi facilitada, como também porque o cabo transportado era fino... portanto, sem muito peso.
            Já na praia, então a tarefa seria passar o cabo em volta da bóia, que se apresentava com uma espessa camada de mexilhão, exceto na parte que ficava fora d’água, onde justamente se localizavam duas pequenas antenas.
            Por sorte, conduzia na cintura uma faca tipo “peixeira” (sempre usadas em fainas) com a qual comecei a remover os incômodos moluscos para poder subir na bóia e amarrar convenientemente o cabo nas partes salientes, no caso as “antenas”.
            Todavia, quando consegui passar o cabo, ao apertá-lo uma das antenas se desprendeu da base, por desgaste da chumbada que a sustinha na posição inclinada para fora.  Nessas condições seria impossível fixar o cabo; e passar em volta da bóia não havia como fixá-lo.
            Então, quando senti a antena soltar-se, veio-me a idéia de dar uma de herói, se estava com a faca (pelo menos a peixeira) e o queijo (no caso a antena) nas mãos.
            Resolvi ir até o passeio onde se aglomeravam os banhistas para informá-los que já podiam tomar banho sem receio, pois a “mina” estava desativada e a “espoleta” (no caso a antena) estava em minhas mãos.
            Enquanto falava com os banhistas vinham em minha direção alguns soldados do Exército e dois policiais militares interessados em saber a gravidade da permanência na praia daquele “artefato de guerra”, como se referiam, ocasião em que lhes afirmei que a “mina” estava desativada e que a carga explosiva fora inutilizada com a penetração da água, em conseqüência da retirada da “espoleta” detonadora da “carga explosiva”.
            Em fração de segundos a notícia da liberação da praia se espalhou por toda a orla, e já havia até quem estivesse planejando uma “pelada” com aquela gigantesca bola de ferro.
            A essa altura  estavam no local repórteres de rádio e dos jornais do Rio de Janeiro (então Distrito Federal) e de Niterói interessados em fazer “manchetes”.  Entretanto, quando fui por eles procurado, limitei-me a dizer-lhes que não podia dar qualquer informação, e que as mesmas poderiam ser prestadas pelas autoridades navais no Comando Naval do Centro ou na Base da Defesa Flutuante.
            A iniciativa de liberar a praia, além de me transformar em “herói” ainda me possibilitou a ajuda dos banhistas que se ofereceram para a faina de levar a bóia para onde seria recolhida pela lancha.
            Entretanto, quando a bóia já estava em condições de ser rebocada, ao procurar a lancha para dar-lhe o sinal combinado, já se encontrava muito distante de onde ficara aguardando a  prontificação para o reboque.
            Enquanto a lancha não aparecia, fiquei de ”papo”  com as banhistas,  de preferência, recebendo  os elogios de todos, indistintamente, que ressaltavam minha “coragem” e “sangue-frio” na desativação da “perigosa mina”
            Já passando do meio-dia, comecei a ficar preocupado com a lancha que desaparecera, podendo inclusive ter sofrido alguma pane nos motores.  E da preocupação veio a inquietação, que foi notada por uma jovem que sentira minha súbita transformação.
            Como estivera n’água por muito tempo, era natural que estivesse sentindo frio, foi o que deve ter pensado a jovem, ao oferecer sua casa ali próximo e para onde fui conduzido para um reforçado lanche, ocasião em que telefonei para o Posto de Comando da Defesa Flutuante informando o desaparecimento da lancha LP-5.
            Informada à lancha de patrulha pela radiofonia, imediatamente sua guarnição entrou em ação e logo avistou a lancha LP-5 quase fora de barra, que embora sem problemas nos motores, estava sem combustível, visto que ficara em serviço na noite anterior, portanto sem condições para fazer serviço extra prolongado sem se reabastecer.
            E se a lancha de patrulha que foi a seu encontro não houvesse chegado com tanta presteza, a lancha que estava sendo procurada teria ido de encontro às pedras, das quais estava distante apenas uns cem metros aproximadamente.
            Enquanto uma lancha livrava a outra de naufrágio certo, - ainda mais porque em seguida se abatia inesperado vendaval, a praia ia ficando vazia.
            E quando a chuva começou a cair, na praia já completamente deserta, somente se podia ver o “herói” e a “mina”, esta não mais o assunto predominante que fora durante toda aquela manhã de sol abrasador, pelo menos até depois do meio-dia, quando se abateu o vendaval e caiu o pesado aguaceiro que afugentou da praia os banhistas.
            Como já estivesse abrigado com roupas que me foram emprestadas pela jovem que me levou à sua casa, permaneci na praia aguardando os acontecimentos.
            Felizmente, por volta das 17:00 horas, chegava ao local uma equipe da Base de Navios Mineiros em Mocanguê para retirar a bóia, que, com a vazante da maré estava bem afastada da água e enterrada na areia, sendo impossível ser rebocada pela pequena lancha que acabava de chegar.
            Somente no dia seguinte, um batelão apropriado se deslocou da Base para recolher a bóia e colocar uma outra em seu lugar na rede flutuante.
            Finalmente, às 19:30 horas deixava a Base de Navios Mineiros para onde fui conduzido, com destino à minha unidade.
            E no dia seguinte, segunda-feira, às 12:00 horas, estava de volta ao serviço de patrulha, na mesma lancha LP-5, podendo ver então a faixa de colocação da bóia na rede e o reboque da ““mina” desgarrada.”.
            Apesar dos pesares, desfrutei bem o domingo na badalada praia de Icaraí - Niterói, bem melhor que a de Ramos... e com muitos aplausos, elogios e até mordomias, tendo ou não direito a tantas regalias... enquanto os colegas que ficaram na lancha, além do susto que passaram, deixaram de ter a planejada praia de Ramos e o “badalado” almoço na casa do colega que nos fizera o amável convite e que foi também uma das quase vítimas que se encontravam na lancha LP-5.
            E foi assim, sem esperar, que pratiquei um ato de “heroísmo” em troca de uma praia de subúrbio e o almoço que fora combinado para aquele domingo inesquecível.
            Valeu!!!
  
José Augusto de Oliveira

NO TEMPO EM QUE AS “CAMISINHAS” ERAM DE VÊNUS
        
            No ano de 1948, precisamente do dia 20 de janeiro, - lembro bem a data por ser o dia consagrado a São Sebastião - Padroeiro do Município do Rio de Janeiro, era também o dia do aniversário de um inquilino que morava na mesma casa onde moravam seis marinheiros, na Ladeira do Barroso - bairro da Saúde.  A casa dispunha da sala principal, onde morava o casal de velhos, os três quartos alugados aos marinheiros, a sala de jantar onde dormiam os filhos do senhorio, seu quarto e as demais dependências (cozinha e “banheiro”).  Conseqüentemente dois terços da casa eram alugados (preferencialmente a marinheiros, se recomendados), pois dos filhos duas eram do sexo feminino, portanto exigindo inquilinos que soubessem se comportar com dignidade, pois os marinheiros eram tratados como filhos... mesmo porque ninguém atrasava o aluguel e pagava satisfatoriamente as refeições.
            Nesse mesmo dia deu-se um incêndio em um depósito de artigos farmacêuticos na Ladeira Madre Deus, por volta das 13:00 horas, ali comparecendo uma viatura do Corpo de Bombeiros que prontamente debelou o incêndio e em seguida colocava na rua o material que fora estragado pelo fogo e pela água.
            Como os artigos retirados já estivessem imprestáveis, não havia necessidade de ninguém no local para montar guarda, pelo menos até às 16:00 horas, quando por ali passou a esposa do aniversariante conduzindo o bolo de aniversário.  E ao deparar com uma das caixas  jogadas, justamente a que continha artefatos de borracha, julgou tratar-se das conhecidas bolas que enfeitam aniversários de crianças, não tendo dúvida em conduzi-la para servir de enfeite para o aniversário de seu Mamede... talvez tenha sido o seu pensamento.
            Embora seu esposo estivesse completando setenta anos naquela data, a presença das bolas seriam muito oportunas para melhor homenageá-lo, assim como agradar as crianças cujos pais  que foram convidados certamente as levariam.
            E até podia ser... Mas!...
            A caixa simplesmente continha preventivos, as conhecidas “camisinhas de Vênus”.
            Beleza pura... foi o que deve ter pensado dona Zuzu!
            E quando o primeiro marinheiro que morava na mesma casa chegou,  à tarde, dona Zuzu a ele se dirigiu solicitando que lhe fizesse um favor: encher as bolas para serem distribuídas com a garotada que participasse da comemoração do aniversário.
            “Paulista”, como era tratado o marinheiro em apreço, não se fez de rogado... e mãos à obra, indo até um posto de gasolina da rua Visconde da Gávea, onde trabalhava um ex-marinheiro seu conhecido, e com a mangueira de ar comprimido para pneumáticos encheu quantas pôde as grossas “lingüiças” (como ficaram parecendo) que foram amarradas em um cabo de vassoura  e  por ele conduzidas  de  volta, já cheias, deixando intrigado quantos observaram as inusitadas  “bolas”.
            Como “Paulista” já era conhecido na Ladeira do Barroso pelas suas artimanhas, nem mesmo seu colega de quarto, o “Perninha de rã”, falso moralista que namorava uma moça da vizinhança, sequer se interessou pelo fato, inclusive porque não fora convidado para o aniversário por ser considerado antipático, apesar de também morar na mesma casa de cômodos... e ser justamente o companheiro de quarto do marinheiro ora focalizado.
            O próprio “Paulista” encarregou-se de pendurar as bolas, inclusive outras legítimas que por ele também foram sopradas com a ajuda de um canudo.
            Logo que chegava a primeira convidada acompanhada de suas duas filhas de 15 e 17 anos,  considerada como a “puritana” do  bairro, ao invés  de alertar a esposa do aniversariante de que as bolas eram impróprias, começou a destratar a pobre senhora e retirou-se levando as filhas,  ao mesmo tempo que se voltava contra o senhorio por não saber escolher seus inquilinos, se referindo ao pobre casal, sem mencionar os marinheiros, mesmo porque sua filha mais velha namorava um dos que moravam na referida casa.
            Sem saber do que se tratava, o senhorio foi até o cômodo ocupado pelo casal de velhos e então ficou inteirado de que se tratava de uma comemoração de aniversário, porém não atentou para o detalhe das  bolas...
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            Foi quando a namorada do “Perninha de rã” chegava para esclarecer o que estava acontecendo, porque tomara conhecimento da ocorrência através da primeira convidada que se retirara, ao  mesmo tempo que soltava os cachorros contra o “Paulista”, que, segundo seu namorado, ”era o responsável pelo que estava acontecendo por sua costumeira irreverência”.
            O senhorio prontamente foi interpelar seu inquilino, que simplesmente se defendeu dizendo na maior cara de pau ”que fizera apenas um favor à dona Zuzu... e mesmo sabendo tratar-se de “camisinhas”  julgou  que fosse promessa  para  que seu Mamede pudesse ainda usá-las, se o milagre acontecesse”.   
            Mas,  enquanto o senhorio interpelava seu inquilino marinheiro, as bolas estavam sendo distribuídas com a garotada, inclusive as que ainda estavam no invólucro, podendo se ver considerável número de crianças tentando encher as “bolinhas da dona Zuzu”.
            E quando dona Zuzu foi informada a respeito das “bolas”,  botou o “Paulista” para fora da dependência que o casal ocupava;  e ele sem se alterar, pois apenas colaborou para encher as “bolas” das crianças que estavam encontrando dificuldade para enchê-las... sendo-lhe arrebatada a fatia de bolo que já haviam recebido.
            Retirados do quarto os “balões mágicos”  (nome dado pelo “Paulista”), o incidente pareceu esquecido.
            No dia seguinte, domingo, muito cedo “Paulista” levantou-se para ir para bordo, mesmo não estando de serviço, talvez para livrar-se da ira do casal.
            Dona Zuzu  vendo o marinheiro sair com um vasilhame (balde que ele levava para bordo para seu uso), perguntou-lhe se estava faltando água na caixa, considerando ser comum a falta d’água no bairro... e principalmente na Ladeira do Barroso.
            - Não está faltando água , dona Zuzu...
            - E por que o senhor está levando esse balde?
            - Porque acabei de ouvir na Rádio Tupi a informação de que está sendo distribuído leite com chocolate na igreja de São Jorge para os fiéis.
            A pobre senhora na sua ingenuidade, sem ao menos dar o café da manhã a seu marido que ia trabalhar naquele domingo, guarneceu dois panelões e se mandou para o local indicado pelo marinheiro, informando a quantos encontrava a distribuição do alimento.
            Nem seria necessário dizer que outros incautos foram na onda e se dirigiram à igreja de São Jorge na Praça da República...  mas só assistiram à missa das 07:00 horas.
            Dona Zuzu com mais esse logro prometeu se vingar do “Paulista” na primeira oportunidade... ”ele não perde por esperar”, resmungou.
            Segunda-feira estava o “Paulista” de volta, aproveitando-se dona Zuzu para pregar-lhe o merecido castigo, cujo feitiço foi para  a própria feiticeira.
            Como sempre o primeiro a sair de casa era o marinheiro em apreço, dona Zuzu estendeu um arame na varanda durante a noite, passagem obrigatória para os que moravam nas demais dependências que não a sala principal, depois que todos já haviam chegado, para que o “Paulista” ao sair de manhã, ainda escuro, topasse no arame e fosse de encontro ao chão.  Mas ele havia entrado de férias e conseqüentemente não acordaria cedo e nem iria para bordo, como de costumava fazer diariamente.
            Aconteceu que dona Zuzu esquecendo da armadilha, pela manhã quando se dirigia ao banheiro levando o urinol que usavam nos aposentos à noite,  que por estar abastecido com matéria orgânica além da urina, não fez o trajeto por dentro de casa como de costume, devido ao insuportável mau cheiro, mas usando a varanda;  e ela mesma foi quem estatelou-se, tomando um banho de tudo que tinha direito.
            “Paulista”, que acordava mais cedo mesmo estando de férias, ao ouvir o barulho da queda levantou-se para tomar conhecimento do que estava acontecendo.  E quando viu o cenário na varanda, cinicamente perguntou: “ Dona Zuzu, durante a noite choveu merda ou estourou o esgoto”?...
            Entretanto ele não sabia que na queda a senhora ferira os lábios e perdera dois dentes, sendo obrigada a procurar o serviço de pronto socorro na Praça da República, o mais próximo.
2

            E quando voltava do hospital onde fora se medicar, já se fazia acompanhar de uma carroça de tração animal para transportar seus móveis (guarda-roupas, cama, duas cadeiras e uma pequena mesa) para a nova residência na rua do Monte, pois na Central do Brasil fora informada por sua comadre de que ali naquele endereço  havia uma vaga para alugar a casal sem filho.  “Sopa no mel, comadre, vou mudar hoje mesmo”...
            E já no dia seguinte o cômodo com cerca de vinte metros quadrados estava alugado para outros três marinheiros, cada um pagando o dobro do que pagava o casal.
            Às vezes, há males que vêm para o bem, foi o que certamente deve ter pensado o senhorio, que estava mesmo querendo que o casal de velhos se mudasse porque pagava uma ninharia pelo aluguel.
            Finda as férias, “Paulista” que já havia pedido baixa do serviço da Marinha, aguardava apenas a publicação do ato para ocupar uma vaga de servente na Mesbla, ali trabalhando algum tempo,  até quando se decidiu voltar para sua terra natal - São Paulo.
            E deste então não mais se soube notícias do ex-marinheiro, que apesar de suas conhecidas irreverências era um bom colega,  assim com também fora bom marinheiro.
  
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José Augusto de Oliveira

CAPRICHOS DO DESTINO

            O trem, parecendo já cansado, mesmo assim teve fôlego para dar um apito quase abafado, como que anunciando sua chegada à estação de destino, onde pernoitaria, e para onde também iam alguns colegiais, cuja líder do grupo – Rosélia, os convidara para as merecidas férias escolares de fim de ano na fazenda de seus pais.
            Na casa grande da fazenda o pequeno grupo se dividiu para ocupar os dois grandes quartos, um para às quatro moças e o outro para os três rapazes, sendo que um deles experimentava pela primeira vez a sensação de dormir em rede, visto que procedia do Sul do país a convite da filha do fazendeiro, Rosélia, que o conhecera quando de sua viagem em excursão a Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, nas férias do meio do ano.,
            Mal acabavam de chegar, e apesar do adiantado da hora, 18:30 horas, a primeira iniciativa da líder foi o banho no açude, que segundo o costume da terra, - mesmo para tirar o cansaço -, seria despido, pois só havendo um acesso ao local conveniente e seguro para o banho, conseqüentemente os banhistas podiam ficar tranqüilos, principalmente as mulheres, porque a simples presença de uma toalha branca estendida na porteira de aceso ao açude, indicava a presença de mulheres tomando banho. Quanto aos homens, não seria necessária nenhuma medida acauteladora.
            Durante a viagem, Rosélia dissera para Stênio, o estudante dos pampas, que na fazenda vizinha à de seu pai, morava a mais linda sertaneja da região, jovem de apenas vinte anos, e desde os dez anos educada em colégio de freiras, em regime de internato, e somente nas férias escolares dos fins de ano marcava presença na fazenda, onde permanecia por cerca de três meses.
            Naquele ano, todavia, sua permanência seria definitiva, uma vez que terminara o Curso Rural Normal no Colégio Salesiano e se formara em professora.
            Assim, habilitada para o magistério, decidira lecionar na própria fazenda, onde havia uma pequena escola, porém com mais de oitenta alunos, que ficariam distribuídos em duas turmas, uma na parte da manhã e outra à tarde.
            Guacira, a linda jovem sertaneja, que chegara ao sertão na semana anterior, também para o merecido gozo de férias, desta feita por tempo indeterminado, já estivera na casa dos pais de Rosélia, quando ficou sabendo de sua chegada acompanhada de alguns colegas seus, naquele final de semana,
            As duas grandes fazendas, apesar de serem contíguas, contudo as casas dos proprietários se distanciavam uma da outra cerca de seis quilômetros, estando o açude nas terras de Manoel Gabriel, genitor de Guacira, mas, servindo às duas propriedades. Já a escola se situava na propriedade do Senhor Heráclito, genitor de Rosélia, servindo a toda aquela região sertaneja, por ser a única existente.
No mesmo dia em que o grupo chegou, por ser noite de lua cheia, resolveu Stênio (o mais velho do grupo) – 23 anos, apresentar os votos de boas-vindas à jovem sertaneja Guacira, mas contando apenas com a aquiescência de Rosélia e de Miriam.
Por volta das 23:00 horas, montados em folgosos cavalos, os três se dirigiam à fazenda vizinha, todavia não iriam direto para a casa grande, se uma serenata seria a finalidade do passeio, embora os três estivessem cansados da longa viagem de trem naquele dia.
Já passava da meia-noite, quando se encontravam bem pertos da fazenda Gameleira, dos pais de Guacira, mas o ladrar dos cães não assustou o pequeno grupo de seresteiros que então dava início a homenagem à linda sertaneja com a declamação do poema “Minha alma é triste”, de Casimiro de Abreu, na voz de Rosélia.
            Stênio, dono de bonita voz e Rosélia e Miram exímias violonistas, encantavam não somente a sertaneja, para quem era a homenagem, como a própria Natureza, pois se pôde ouvir, finda a serenata, o gorjeio da passarada pousada nos arbustos, bem como o tagarelar de outras aves nas árvores.
            Terminada a declamação se podia ouvir o soluçar de Stênio, que dizia estar ouvindo pela primeira vez tão lindo, ainda que triste, poema.
            Em seguida seria Stênio que faria sua saudação à jovem Guacira com a interpretação da divina e comovente canção de Renê Bittencourt: “Sertaneja”.
            Finda a interpretação da canção, quem choravam eram as duas acompanhantes, Miriam e Rosélia, esta também nascida e criada naquele sertão, até quando igualmente fora internada em colégio de freiras, um ano depois de Guacira.
            No interior do casarão, luzes de lampião eram acesas e uma janela logo se abriu e ali presente a homenageada, que ainda soluçando se esquecera até de cumprimentar o grupo e agradecer a comovente homenagem, mas logo os convidando para entrar.  Porém, por ser muito tarde, ou melhor, já cedo, se a passarada em doce orquestração fazia sua alvorada, Rosélia prometia voltar oportunamente.
            Convidada por Rosélia, Guacira iria almoçar e pernoitar naquele dia na propriedade dos pais de sua inseparável amiga.
            Às 11:00 horas chegava à fazenda “Riacho do Meio” a bela jovem Guacira, cabelos longos na altura da cintura, negros como a noite, corpo esbelto, cor bronzeada muito acentuada e olhos ligeiramente esverdeados.
            Chegava no lombo de poldro ainda um tanto arisco, se há pouco estava o animal sendo domado, mas ainda não aceitando cela.
            Após o almoço, o grupo inteiro, agora acrescido de Guacira, saiu a cavalo para um passeio com a finalidade de conhecer os recantos bucólicos da fazenda, os pastos e as mangas onde se abrigavam o gado e outros animais.
            Ao cair da noite estava o grupo regressando, tendo passado antes pelo açude para o costumeiro e confortante banho.
            Terminado o jantar, lá pelas 21:00 horas, a senhora Altina, mãe de Rosélia, pede a Guacira que brinde os convidados com seu vasto e conhecido repertório, no que não se fez de rogada.  Primeiro foi ao piano e tocou algumas músicas populares, mas românticas, para no final, se acompanhando ao violão, cantar para Stênio o tango  “La  Cumparsita”, em versão dela própria, recebendo do homenageado no final da interpretação um demorado e afetuoso abraço.
            De repente, Guacira resolve voltar para casa, pois mostrava-se visivelmente emocionada com o inesperado e carinhoso abraço de Stênio.  Não queria ela se deixar trair pela emoção; e por mais que lhe fossem dirigidos apelos, sua decisão foi irrevogável.
            Stênio e seus outros dois colegas se ofereceram para acompanhá-la em virtude do adiantado da hora, mas ela recusou a companhia, simplesmente para não sacrificar os rapazes, que, como as moças, tiveram um dia de cansativas atividades, merecendo, portanto, o mesmo descanso que ela também buscava, se na noite anterior despertara com a serenata e não mais conciliara o sono.
            De Porto Alegre, Stênio recebia carta de sua irmã dando-lhe informações bem desagradáveis sobre a noiva dele, que por um de seus irmãos fora encontrada em famoso hotel em companhia de influente industrial casado e com família já constituída.
            Mas, a notícia sequer o abalou, pois de há muito não usava a aliança de noivado, desde que começou a desconfiar da conduta de sua noiva, da qual parecia estar se afastando. Porém começava a viver outro drama, visto que estava deveras apaixonado por Guacira, que para desengano dele já era comprometida com um primo ausente, também filho de fazendeiro de outro município e que então se encontrava na Academia Militar cursando o último ano, aguardando apenas a conclusão do curso para oficializar seu compromisso com a prima.
            Ao saber que Guacira estava comprometida com o seu primo, Stênio que fora à fazenda dos pais de sua amiga Rosélia para gozar suas férias escolares, ou para se afastar o mais que pudesse de sua noiva, sem apresentar justificativa aceitável, - a menos que fosse a notícia que a carta lhe trouxera, sem contudo revelar o conteúdo -, com menos de três dias de sua chegada anunciava seu regresso a Porto Alegre, deixando todo o grupo muito apreensivo, se era ele o mais animado, e de repente muda o seu comportamento e os planos iniciais de permanência na fazenda para o gozo de suas férias escolares de final de ano.
            Na véspera de sua partida de retorno à capital do Ceará para viajar para Porto Alegre, via Rio de Janeiro, Stênio foi despedir-se de Guacira ainda mais triste; mas ela tinha absoluta certeza de que a decisão dele resultara da informação que lhe dera, de ser comprometida com o primo, quando estivera na casa de Rosélia.
            Tal qual ela fizera, também seria a estratégia de Stênio para ir embora, sem que a viagem estivesse em seus planos, verdadeira demonstração de fuga ao se sentir frustrado em seus sentimentos.  Melhor que ninguém podia ela avaliar, se também passara pouco antes por igual situação, quando sentiu a mesma atração por Stênio, ensejando que se decidisse de pronto voltar para casa naquela mesma noite, se fora com a intenção de pernoitar na casa de sua amiga Rosélia.
            À noite, em companhia de Rosélia e Miriam, voltava Stênio à fazendo dos pais de Guacira para repetir a despedida, mas com sentimental serenata, porquanto a despedida formal fizera à tarde; mas não fora a mesma que sua alma apaixonada desejava fazer no silêncio da noite já sem luar.
            Se da primeira vez, sem ainda conhecer Guacira e sua singular beleza cantara com a alma, desta vez seria a própria alma a cantar a linda composição de Lourival Faissal – “Canção do amor que lhe dou”.
            Bem cedo, os demais integrantes do grupo se levantam para acompanhar Stênio até a estação onde tomaria o trem com destino a Fortaleza; e lá, o avião que o levaria a seu destino: Porto Alegre.
            De volta da estação, o grupo agora sem o integrante mais alegre estava visivelmente dominado pela tristeza, principalmente Rosélia, a anfitriã, que apesar de não demonstrar, também parecia muito apreensiva, pois desde que estivera ali na sua fazenda nas férias dos meio de ano, se apaixonara por Ubirajara, o irmão de Guacira, que na ocasião estava ausente da fazenda. Mas sequer por ele perguntou para não demonstrar seu interesse.
            E quando da primeira homenagem a Guacira, no mesmo dia em que chegaram à fazenda, a declamação do poema feito por Rosélia, intimamente não foi para Guacira e sim para Ubirajara, que infelizmente estava ausente da fazenda há mais de dez dias tratando de negócios na capital, segundo viria Rosélia saber depois, justamente quando Guacira fora retribuir a homenagem que recebera na véspera.
                        Guacira, desde a despedida de Stênio, ficou ainda mais triste, chorando sempre que lembrava das canções que lhe foram dedicadas nas duas serenatas: “Sertaneja” e “Canção do amor que lhe dou”, esta, da última serenata, a  de despedida.
             Logo depois do almoço daquele mesmo dia, Guacira a pretexto de melhor domar seu poldro, nele montou e se dirigiu para a casa de Rosélia, onde foi encontrar o grupo ainda muito pesaroso com a partida inesperada de Stênio, notadamente a anfitriã, que além da saudade do amigo que partira abruptamente, ainda não tinha absoluta certeza se Ubirajara corresponderia com a mesma intensidade quando soubesse que ela o amava, porém sem tomar a iniciativa de revelar esse amor, não por orgulho, mas, talvez, para despertar no eleito o interesse desejado.
            Aproveitando que os hóspedes faziam a costumeira sesta, em companhia de Guacira Rosélia deixa sua casa para um passeio pelos currais, ocasião em trocam confidências. Guacira, soluçando, confessa que realmente estava alimentando um sentimento muito mais profundo por Stênio, pois os acordes de sua voz maravilhosa ainda se faziam presentes. Entretanto tinha compromisso com seu primo, embora ainda não oficializado.
            Já Rosélia ficava muito feliz quando tomava conhecimento de que Ubirajara chegaria no final daquele mesmo dia.
            Segundo declaração de Guacira, Ubirajara realmente não havia de ter notado o interesse de Rosélia, principalmente por ser um tanto tímido, mas sabia que ele falava constantemente no seu nome.
            A própria família não acreditava que Ubirajara tencionasse assumir compromisso mais sério, se era ainda muito jovem, um ano apenas mais velho que sua irmã.
            Ele que estudara em colégio religioso até concluir o científico, decidiu-se pela vida na fazenda, e da qual era o administrador, tomando a si todas as tarefas, sempre aprovadas pelo chefe da família.  Embora muito amigo de sua irmã, não via futuro para ela ali naquele imenso sertão. Todavia, se era sua própria escolha, que se respeitasse sua decisão.
            Informado dos últimos acontecimentos pela sua irmã, o que mais lhe interessou foi saber da presença de Rosélia na fazenda de seus pais, pois havia adquirido na capital um lindo presente para ela, se tinha certeza de sua presença na fazenda, como de costume, para as férias de fim de ano.
             Devidamente bem informado, principalmente de que Rosélia o amava, naquela noite do dia em que chegara, ele foi visitá-la e conhecer os demais hóspedes, o que fez em companhia da irmã Guacira, que tornou-se o elo de ligação com Rosélia.
            Felizmente, exceto para Guacira, a partir daquele momento se desfazia o véu de tristeza e a alegria voltava a dominar o grupo.
             Pela primeira vez, Guacira deixa de receber a correspondência rotineira de seu primo e namorado, que lhe escrevia religiosamente pelo menos uma vez por semana.  E por estar ele em período de férias, dispunha até de mais tempo para desincumbir-se de seu compromisso com a prima... E nem pela passagem do Natal um cartão sequer foi enviado.
            O carteiro que fazia a entrega da correspondência na região, ali naquelas duas fazendas marcava presença sempre às segundas-feiras, aproveitando para arrecadar a correspondência a ser encaminhada através do correio.
             Nos primeiros dias do mês de janeiro, finalmente chegava para Guacira uma carta de seu primo comunicando-lhe o recebimento das cartas que ela havia lhe enviado, ao mesmo tempo que se desculpava pelo prolongado silêncio.  Entretanto, a carta além de lacônica não tinha o tratamento carinhoso de sempre.
             Outra carta, além da correspondência normal,  seria recebida por Guacira no final do mês de julho participando a formatura dele no dia 25 de agosto daquele ano, mas sem confirmar o convite para ser a sua madrinha, conforme ficara combinado desde que ele ingressou na Academia Militar.  E o tratamento desta feita, apesar de cordial, foi ainda mais frio e distante.
             Finalmente, na última segunda-feira do mês de agosto, estava Guacira entregue à mais profunda meditação escutando o samba “Mensagem”, de Cícero Nunes e Aldo Cabral, quando o carteiro chegava para entregar-lhe uma correspondência mais volumosa que de costume, pois estava acompanhada de convite de casamento, já para o mês de setembro, de seu ex-namorado, com a filha de um general que inclusive foi a sua madrinha de formatura. Ficara noivo um ano atrás, porém não tivera coragem de participar o fato à sua prima, com a qual estava comprometido, talvez até por julgar que Guacira não houvesse levado a sério a promessa... viria ela saber mais tarde.
            E por ironia do destino estava a deusa do sertão ouvindo o samba “Mensagem” quando o carteiro chegava para lhe entregar a sua sentença, que enfim se constituía na perfeita tradução da música que ela ouvia na ocasião.  E para que ler a carta se o convite era a mais contundente prova de sua traição, talvez até mesmo oportuna!
            Simplesmente rasgou e queimou a correspondência, tal como o enredo do samba que ela repetia seguidas vezes, como para castigar-se por ter acreditado em promessa falsa, enquanto vira partir, dias atrás, com o coração ferido, alguém que por certo já lhe devotava verdadeiro amor.
             Para não dividir com seus pais sua decepção e tristeza, confidenciou apenas a seu irmão, recomendando-lhe que não comentasse com Rosélia e nem com os seus amigos o que ela acabava de lhe revelar.
            Guacira tinha esperança de um dia receber carta de Stênio, mas não devia partir dela a iniciativa de escrever, e mesmo porque não sabia o endereço dele e não querer perguntar à Rosélia para não haver comentários.
            Nessa malfadada segunda-feira, Guacira apesar de sua profunda mágoa não deixou de dar as aulas programadas para os dois turnos, finda as quais, de volta à casa jantou bem mais cedo que de costume e também mais cedo foi deitar-se para melhor disfarçar sua tristeza.
            Depois de se embalar na rede por longo tempo, como que entorpecida adormeceu e logo sonhou com Stênio, que no sonho lhe aparece já bastante envelhecido e de cabelos brancos, maltrapilho, no meio daquele mesmo grupo e ali na fazenda dos pais de Rosélia.
             E como se Stênio fosse simples forasteiro e desconhecido, Rosélia fala para ele da presença do grupo na fazenda, sem deixar de ser lembrado que faltava um integrante, o qual fora embora porque de repente se viu envolvido com uma linda sertaneja, a beleza do sertão... mas que ela já era comprometida.
            Sem se identificar para o grupo, pois queria permanecer no anonimato, uma das demais integrantes do grupo perguntou-lhe se sabia cantar, sendo a resposta afirmativa. Então convidaram o  estranho para irem fazer uma serenata para a deusa do sertão, ocasião em que mencionaram o seu nome – Guacira. Foi quando, no sonho, ele começou a cantar a canção “Cabelos brancos”. E na sua interpretação harmoniosa e triste, mas com sua voz inconfundível o grupo achou a voz do seresteiro em tudo semelhante à do amigo de quem há pouco se falava.
             Tomada de emoção, Guacira desperta em pranto, podendo ainda ouvir os acordes da canção “Cabelos brancos”, pois seu irmão com alguns colonos no alpendre da casa em companhia de violonistas, cantavam para agradá-la ou até mesmo consolá-la, ocasião em que um dos presentes anunciava o próximo número: “Chuvas de verão”.
            Levantando-se abruptamente da rede, ela foi até onde se encontrava seu irmão e os seus acompanhantes e delicadamente pediu-lhes para que parassem com a cantoria, que ela bem gostaria de continuar escutando se não estivesse com tanta dor de cabeça.
             Prontamente seu pedido foi atendido, mas Ubirajara vai conversar com sua irmã, pois sabia que a sua dor não era propriamente na cabeça... mas no coração.
            Como eram verdadeiros confidentes, Guacira faz saber a seu irmão que a presença de Stênio na fazenda a deixara realmente muito dividida. Todavia, respeitara o compromisso com seu primo, agora já casado.
            - Maninha, se você está sofrendo por esse rapaz eu vou procurá-lo nem que seja no inferno. Em uma semana ou um pouco mais eu resolvo essa situação, pois eu também  sofro muito vendo você em tamanha nostalgia.
- Você faria isso por mim, “Bira”?
- Já estou decidido. Encarregue-se de arrumar minha mala, pois no trem de sábado vou para Fortaleza e de lá para o Rio de Janeiro, onde embarcarei com destino a Porto Alegre, pois não há vôo direto entre as duas capitais.
E no fim daquela mesma semana “Bira” viajava para Fortaleza, primeira escala; e na segunda-feira pela manhã, em vôo direto seguiu para o Rio de Janeiro, onde chegava às 15:00 horas embarcando em seguida em avião procedente de São Paulo com destino a Porto Alegre, onde chegava às 19:00 horas, indo para o hotel e de imediato entrando em comunicação com a família de Stênio, quando ficou sabendo que ele estava internado para tratamento em clínica particular, vítima que fora de atentado por familiares de sua ex-noiva, ao tomar satisfações a respeito da conduta da moça, que havia se envolvido com um industrial que viria a se separar da família para viver com ela. E ao procurar a família da ex-noiva, dias depois de regressar de sua viagem ao Ceará, já refeito da inesperada decepção, fora pedir explicações com referência à moça, ocasião em que a ela se referiu qualificando-a como a mais sórdida das mulheres mundanas que já conhecera.
            Dois dias depois, em emboscada, fora ele alvejado com dois tiros de médio calibre, atingindo-o uma bala a coluna vertebral, mais precisamente numa das vértebras cervicais, portanto condenado a uma paralisia parcial, obrigado ao uso de cadeira de rodas, talvez temporariamente, tudo dependendo da extração desse projétil alojado no local.
E logo que Stênio tomou conhecimento da presença de Ubirajara hospedado em hotel, determina que ele fosse hóspede de seus pais, sendo providenciada de imediato sua mudança do hotel para sua residência, tarefa confiada a sua irmã.
Naquela mesma noite Ubirajara vai conhecer Stênio, ficando em sua companhia a noite toda, na casa de saúde, pois deveria regressar o quanto antes.  Houve tempo suficiente durante a noite para que Stênio confessasse a Ubirajara o seu amor pela irmã dele, que então estava sofrendo pelo que soubera a respeito de seu primo.
Ubirajara também ficou sabendo que era intenção da família de Stênio se desfazer de todas as propriedades e dos negócios e fixar residência no Nordeste, preferencialmente em Fortaleza ou Natal, pela ordem, principalmente depois desse atentado, pois o autor dos disparos que o prostrara já havia pago com a vida sua agressão. Conseqüentemente, estava declarada uma guerra entre duas famílias, sendo, portanto, necessária a imediata saída dele e de toda a família, se quisessem sobreviver e sem quaisquer futuras preocupações.
Quarta-feira pela manhã, Ubirajara retornava ao Rio de Janeiro para embarcar à tarde com destino a Fortaleza, onde o avião chegou por volta das 20:30 horas, com alguns minutos de atraso devido ao mau tempo entre o aeroporto de embarque e o de uma das escalas: Recife. E na sexta-feira já estava tomando o trem com destino ao interior, onde na estação sempre marcavam presença  charretes das fazendas, principalmente quando alguém das duas famílias viajava, considerando que nem sempre havia tempo de aviso antecipado, mesmo por telegrama, visto que a distância entre a cidade mais próxima e a fazenda, de carro, era de aproximadamente meia hora, pelas más condições da estrada de terra.
Chegando em casa, “Bira” foi logo contando a sua irmã tudo o que tomara conhecimento na viagem, principalmente com relação a Stênio, que temporariamente, ou não, estava paralítico, conseqüentemente inválido para algumas atividades, contudo em perfeitas condições para o matrimônio... o que lhe parecia mais importante.
Diante das informações que acabava de ouvir, Guacira decide ir imediatamente ao encontro de Stênio, que por certo ainda estaria hospitalizado.
Fazendo o mesmo trajeto e seguindo o roteiro fornecido por Ubirajara, na semana seguinte estava Guacira frente a frente com Stênio, que ao vê-la adentrar seu quarto na casa de saúde teve a impressão de estar vendo o impossível.
E no dia seguinte ao da chegada de Guacira, dar-se-ia a operação para a extração do projétil alojado nas imediações da 5ª e 6ª vértebras cervicais; contudo Stênio estava animado devido a presença de sua deusa sertaneja, como ele a ela se referia.
Após a operação, Stênio ficaria mais oito dias hospitalizado, tendo permanentemente à sua cabeceira o seu anjo protetor, que escreveu à família avisando que ficaria mais tempo em Porto Alegre para acompanhar a evolução do tratamento de seu querido amigo que tão bem resistiu à operação, graças talvez a sua própria confiança.
Tão logo Stênio teve alta, Guacira que já estava com seu regresso programado, viajaria dois dias depois.
Na véspera de sua viagem, os pais de Stênio quiseram prestar a Guacira uma justa homenagem; e num dos principais restaurantes de luxo da capital gaúcha aconteceria o jantar de despedida.
E qual não foi a surpresa de Guacira ao ver ocupar a mesa ao lado da que ela e os familiares de Stênio já se encontravam: o seu primo e ex-namorado em companhia da esposa, que era de se supor, já em adiantado estado de gestação.
É que ele fora servir em unidade do Exército ali sediada, talvez até para se ver mais distante de onde vivia sua prima, no extremo sertão cearense.
Mas, o destino os colocava frente a frente ali naquele restaurante.  Ele ficou completamente atordoado; e ela, na maior tranqüilidade, simplesmente os cumprimentou fazendo ainda as apresentações que a ocasião exigia.
Maior foi então a vontade de Guacira de regressar ao sertão, pois jamais pensara voltar a encontrar tão cedo o seu primo e ex-namorado... e nas circunstâncias em que se dera o encontro.
Quando voltaram do jantar, Stênio que ficara em casa em companhia de sua irmã e dos empregados domésticos, havia preparado um cerimonial simples para fazer uma surpresa a seus pais e à própria Guacira.
Mal adentraram a casa, no salão de jantar, Guacira é tomada de inesperada emoção ao ouvir os acordes da canção “Sertaneja” que um sofisticado equipamento de som reproduzia na voz maravilhosa de Orlando Silva. Em seguida, Stênio comunica a seus pais a oficialização de seu noivado com a deusa do sertão, cuja permissão de seus genitores não mais se fazia necessária, pois naquele mesmo dia ela estava completando a maioridade plena: vinte e um anos, recebendo na ocasião um colar de pérolas pelo aniversário e lindo anel de brilhante pelo noivado.
No dia seguinte, nos jornais da capital gaúcha, lia-se nas colunas sociais o inusitado acontecimento da noite anterior, sendo o retrato da noiva publicado em destaque em alguns jornais da cidade, pois fora ela discretamente fotografada por sua futura cunhada, que era jornalista e dirigia uma rede de jornais gaúchos.
Nesse interregno, Rosélia se preparava para sua formatura e voltava à fazenda para convidar seus genitores para serem seus padrinhos, embora sua intenção fosse convidar Ubirajara e sua irmã Guacira, que realmente seriam os escolhidos, pois seus pais só aceitariam em última instância.
Com a saída de Stênio da casa de saúde, a venda das propriedades de sua família seria finalmente efetivada, já estando em negociações, em Fortaleza, o novo destino da família para uma representação de importação e exportação, cujo principal artigo a ser exportado seria a cera de carnaúba, produto então de grande aceitação no mercado exterior.  Também a industrialização da castanha do caju seria outra atividade da família de Stênio, pois sendo seus pais nordestinos, sabiam perfeitamente do sucesso do empreendimento.
Um, mês depois do regresso de Guacira, também chegava a Fortaleza a família de Stênio, já estando sua irmã, jornalista, credenciada para trabalhar em dois jornais da capital cearense, enquanto Stênio viajava para o Rio de Janeiro para se submeter a uma série de exames e tratamento mais apurado, cujo tempo seria de pelo menos trinta dias.
Com o regresso de Stênio a Fortaleza, depois do tratamento no Rio de Janeiro, tão logo Guacira tomou conhecimento, vai dar as boas-vindas ao noivo e à sua família, aproveitando para tratar dos preparativos para o seu casamento.
Durante a estada com a família do noivo, ficara combinado que o casamento no religioso seria na véspera de São João, no vilarejo perto das duas fazendas; e os noivos se apresentariam para o cerimonial como se fossem caipiras, acontecimento muito comum no Nordeste, principalmente nos sertões; mas desta feita seria para pagar promessa feita pela noiva.
Guacira, muito amiga do vigário da pequena localidade, combinou tudo com antecedência para que houvesse tempo de o padre preparar os festejos juninos e casar os “noivos” na própria igreja, pois de costume as festividades se davam no pátio e não na frente do altar, como iria acontecer. Mas naquele ano a simulação seria para valer, todavia, sem que ninguém soubesse, exceto os familiares do noivo e Rosélia, pois nem a família desta tivera conhecimento do fato antes de acontecer.
O ato civil aconteceu na antevéspera de São João, na cidade próxima, numa tarde chuvosa, sexta-feira, na mais completa discrição, visto que o juiz era amigo de Guacira, e tudo seria feito conforme sua vontade e na  própria residência do magistrado.
Os padrinhos, tanto do ato civil quanto do religioso, foram Ubirajara e Rosélia, cuja oficialização de seu noivado se daria na igreja por ocasião do casamento dos noivos Stênio-Guacira, com seus trajes típicos de caipiras, na forma tradicional, chegando à igreja em uma velha carroça puxada a burro; ainda mais porque o noivo não podia se locomover, estando a carroça preparada convenientemente para os noivos ficarem em posição frontal ao altar improvisado na porta principal da pequena igreja.
Terminada a celebração do ato religioso, o padre informava que o casamento ali celebrado não fora simulado e sim real, respeitando-se a  promessa da noiva, que não queria qualquer pompa; e tudo foi feito com tanta naturalidade que não dava mesmo para se acreditar ser um casamento de verdade, e findo o qual se oficializava o noivado de Ubirajara e Rosélia
Enquanto os participantes dos festejos juninos se divertiam, os noivos retornavam à fazenda dos familiares da noiva para o jantar de comemoração, agora também com a presença dos familiares de Rosélia e de todos os colonos da fazenda da noiva.
Sem que mais ninguém soubesse, além dos pais de Rosélia, esta convidara duas das colegas que estiveram ali na fazenda anteriormente, desta feita para uma missão muito especial: apresentarem o folclore junino para os noivos e convidados e cantarem as músicas aqui já mencionadas e que tiveram significado muito particular para os noivos, notadamente para a noiva.
Com o ligeiro tratamento feito em clínica especializada no Rio de Janeiro e a prática sistemática dos exercícios recomendados, Stênio em suas seguidas tentativas, finalmente conseguiu levantar-se da cadeira de rodas e caminhar apoiado nas coisas fixas, até que resolveu montar no mesmo poldro já domado por Guacira, para passeio pelas imediações das duas fazendas, a fim de melhor conhecê-las, quando em dado momento em que o animal galopava, este estanca abruptamente com a presença inesperada de enorme serpente na estrada, jogando o cavaleiro pesadamente ao solo, enquanto alguns colonos corriam para socorrê-lo e outros para deter o animal que fugiu em louca disparada.
E qual não foi a surpresa de Stênio... e também alegria, ao tentar levantar-se, instintivamente, conseguindo fazê-lo sem ajuda de ninguém e dando alguns passos!
Teria acontecido o sonhado milagre?...
O certo é que tendo lembrado que sentira sua medalha da Virgem Imaculada ter caído, mesmo com dificuldade conseguiu retroceder os passos caminhados e localizá-la no chão, conseguindo também abaixar-se para apanhá-la. Porém, no dia seguinte sangrava pela boca, pois no exato momento em que caiu pesadamente ao solo, sentiu no local operado algo como se as vértebras houvessem se deslocado ou partido-se.
Conduzido ao médico e devidamente examinado, ficou constatado que na coluna não havia qualquer anormalidade... e quanto a presença de sangue na boca seria resultante da própria queda, sendo-lhe receitados os medicamentos apropriados para sarar internamente.
Ainda por recomendação médica, deveria ele suspender os exercícios por alguns dias, até que se sentisse em condições para recomeçá-los.  Mas, cinco dias após voltava a fazer os exercícios sem nada sentir, e até com mais desenvoltura.
Sua cadeira de rodas passou a ser brincadeira para as crianças, porque dela já não mais dependia para se locomover, embora ainda não conseguisse caminhar com firmeza e segurança, o que só viria conseguir dois meses mais tarde.
Para ele realizou-se um verdadeiro milagre, pois embora lhe ficasse assegurado que talvez pudesse voltar a andar, todavia seria com ajuda de muletas. Mas, felizmente, não lhe foram necessárias.
Com o desenrolar desses acontecimentos, nem se deu conta de que o ano estava prestes a findar-se e outro acontecimento, - desta feita com todas as pompas: o casamento de Rosélia e “Bira”, cuja celebração aconteceria na Matriz da Cidade próxima às fazendas, conforme vontade da noiva, com aprovação do noivo, pois na mesma igreja ambos foram batizados.
E no dia da Imaculada Conceição – 8 de dezembro, a secular Matriz da cidade próxima às duas fazendas abrigava por instantes uma criatura que mesmo não sendo santa, tinha a divindade dos arcanjos, tanto na beleza física quanto nas suas ações: a noiva – Rosélia, que tendo concluído o curso da Escola Normal Rural de então, deveria voltar em definitivo para  gozar as delícias que somente o sertão proporciona nos anos em que não falta inverno, pois quando o Sol inclemente castiga os sertões, é que se conhecem a miséria e a fome, quando  não vêm acompanhadas de outras mazelas.
Assim eram os sertões do tempo de minha infância, verdadeiros templos da poesia e berço das canções; sertões dos homens rudes e sem menor instrução, mas honrados, audazes e valentes, que ainda na infância tinham como brinquedo a própria morte e por passatempo os perigos constantes existentes nos longínquos sertões nordestinos, onde a crença é a mais poderosa arma de que se valem os sofridos sertanejos para vencer os desafios e as adversidades.
A fé ainda hoje consola os aflitos e acalenta os desamparados da sorte, pois mesmo vendo morrer a última rês no pasto e só se ver o verde no limo em que se transforma o que resta das águas dos açudes, que mais parecem vulcões abertos diante dos olhos chorosos dos que já não vêem a víride cor da esperança, mesmo assim não maldizem sua sorte.
Como dizia Catulo da Paixão em sua canção “Luar do sertão”: “Não há, ó gente, ó não, luar como este do sertão”...
E nos sertões, em que só se conhecia a luz dos lampiões ou as chamas dos fogaréus, é que se podia ver a beleza do céu estrelejado e, assim, se avaliar a luz do luar emoldurando a Natureza quando havia o verdor das caatingas e das plantações, ou mesmo dourando ainda mais a terra seca, estorricada até, pela inclemência do sol abrasador. E muitas vezes, para se encontrar água era necessária a caminhada de muitos quilômetros... água geralmente salobra, conseqüentemente não mitigando a sede.
E de repente, como por milagre, o céu se tornava carregado de nuvens púmbleas e se abatiam sobre as terras estorricadas dos sertões as inesperadas chuvas. E mesmo sem nada se ter para o alimento o sertanejo não desanimava e sempre agradecia ao Criador.
E persistindo as chuvas, dias depois já se podia ver o alimento para os animais atapetando o chão antes esturricado, que pouco a pouco ia se encharcando e garantindo a germinação das sementes plantadas. Via-se também os bandos de aves já retornando para construírem seus ninhos e se podendo ouvir o gorjeio da passarada no alvorecer de  cada manhã para o agradecimento a DEUS... o que nem sempre o homem se lembra de fazer.
Acabou-se enfim o Brasil sertanejo, o vigor do caboclo queimado pelo Sol, se também já não existe nem a inocência da criança, pois não mais é praticado o sentimento de solidariedade do ser humano, principalmente dos que desconhecem sacrifícios.
Nos dias atuais, resta-nos a beleza da poesia no sentimento ainda imaculado dos poetas, que tão bem sabem cantar em verso e prosa os sertões nordestinos deste imenso Brasil, o futuro celeiro do Universo.
  
José Augusto de Oliveira

CIDADE DOS CORNOS


         Por muitos anos foi do domínio geral que determinado município de um estado nordestino, antes subúrbio da capital, com pomposo nome estrangeiro, era conhecido como a “Cidade dos cornos”.
         Hélio, filho de um oficial de marinha reformado, ao se formar resolveu aventurar-se saindo do Rio de Janeiro, mesmo contragosto da família, com destino ao Nordeste, mais precisamente para Recife, capital pernambucana, onde tomou conhecimento da tal cidade dos cornos.
         Mais por gozação do que por interesse, resolveu Hélio ir conhecer a tal cidade, porém ficando por ela encantado... e assim resolvendo ali se estabelecer com seu consultório médico.
         E com menos de dois anos naquela cidade, já merecia a atenção de todos os habitantes, tendo, portanto, uma boa e seleta clientela, notadamente os familiares de autoridades, não tardando resolver casar-se e continuar morando naquele “paraíso”, principalmente pela tranqüilidade, ar puro e custo de vida satisfatório.
         No convívio social da cidade, era muito comum se ouvir, principalmente nos bares, que ali naquela cidade, para não se morar entre duas casas de cornos teria que ser numa esquina e em cobertura.
         Mas, o médico não tinha qualquer preconceito com referência à cidade e muito menos com seus habitantes... e sequer falava a respeito, a não ser quando estava na roda de amigos nos bares e o assunto vinha à tona.
         Finalmente o jovem médico resolveu casar-se, e para tanto alugou uma das melhores residências da cidade, precisamente uma pequena chácara, para onde inclusive transferiu seu consultório, não somente para diminuir despesas, como, principalmente, pelas condições de melhores acomodações.
         Um ano depois do casamento nascia a primeira filha, fato que foi prontamente comunicado a seus pais no Rio de Janeiro, ensejando de pronto a viagem do Tenente Jeremias que há muito se transferira para a reserva e portanto com disponibilidade de tempo... e de recursos, inclusive para levar sua mulher e a filha ainda solteira, apesar de ser mais velha que o filho médico.
         O tenente Jeremias como era tratado e até se sentia muito orgulhoso com o tratamento, pois fora para a reserva na mesma graduação de suboficial, mas, com o soldo de segundo-tenente, merecia e devia ser considerado como tal.
         - “A gente vale pelo que ganha”, dizia aos seus amigos mais íntimos para justificar o tratamento de oficial”.
         Coincidindo ser o período de férias escolares de sua filha, professora estadual, ficou determinado que a família viajaria para passar o Natal em companhia do filho e de sua família, esticando a  permanência até o mês de março, quando recomeçariam as aulas na rede escolar estadual do Rio de Janeiro.  Portanto, tempo suficiente para o tenente Jeremias e família conhecerem a cidade onde o doutor Hélio residia... e outros municípios vizinhos, além da capital do estado que era próxima.
         Tão logo o tenente Jeremias chegou a seu destino, junto com seu filho passou a participar de seu convívio social, porém dando preferência aos papos nos bares para melhor saborear as “loirinhas suadas” (cerveja) e se inteirar das novidades da sociedade.
         Religiosamente haviam amigos do médico tomando parte na conversa, cujo assunto dominante era sempre a respeito da fama da cidade. A princípio o tenente Jeremias tomava como gozação, até que uma noite no bar principal da cidade, na mesa onde estavam o médico e seu pai, chegava o prefeito da cidade, sogro do médico e seu padrinho de casamento.
         Em meio a conversa o tenente Jeremias já falando com mais intimidade com o prefeito, sugeriu que fosse feita uma campanha para não se difamar tanto aquela hospitaleira cidade, pois seria motivo até de afastamento de pessoas mais escrupulosas, que se tomassem conhecimento da fama da cidade, ainda que fosse gozação, seria prejudicial para o seu desenvolvimento.
         Respondendo, se manifestou o prefeito.
         - Infelizmente, tenente Jeremias, não é gozação o que se fala sobre a nossa cidade.  Mas nós sabemos que a carapuça só cai na cabeça certa.
         - Mesmo assim, ponderou Jeremias, ninguém pode saber quem é quem.
         Dali em diante a conversa versou sobre a cidade dos cornos, inclusive com detalhes e nomes de conhecidos e respeitáveis cidadãos já merecidamente ou não distinguidos com a indesejável “comenda”: o título de corno.
         De volta para casa, Jeremias, católico, apostólico e pernambucano que era, entabulou conversa com o filho a respeito da difamação da cidade, conseqüentemente envolvendo a todos, indistintamente.
         E para melhor convencer o filho a deixar o quanto antes a cidade difamada, resolveu Jeremias passar para seu filho uma propriedade que lhe fora deixada por herança dos pais dele, em Campina Grande.  Era também uma pequena chácara, só que afastada do centro urbano,  mas, distante apenas vinte minutos de carro entre a propriedade e o centro comercial.
         Prometeu Jeremias passar-lhe em definitivo aquela propriedade, com a condição apenas dele mudar-se assim que a casa estivesse em condições de ser habitada; portanto tendo que deixar a cidade em que se instalara.
         Não houve por parte de seu filho qualquer ponderação, assim como da esposa dele, que também sendo professora via na mudança uma boa oportunidade para lecionar, o que até então não havia feito porque seus pais não achavam necessário.  Mas, resolvera ela que precisava ter uma atividade, pois sempre tivera vida liberal e sem menor preocupação.  Todavia, agora as coisas eram diferentes; precisava traçar novos rumos para o bem de sua filha, que seria a única, conforme já decidido pelo casal, embora não concordassem os avós paternos e maternos.
         Nos primeiros dias do mês de março, Jeremias regressava ao Rio de Janeiro com a família, enquanto seu filho também se preparava para se mudar para a propriedade que lhe fora dada por seu pai, cuja transferência dependia apenas do transporte do imobiliário da família e a do consultório.  Entretanto, ainda não era do conhecimento de ninguém da cidade a mudança para Campina Grande.  Nem mesmo o prefeito, seu sogro e padrinho de casamento, havia sido informado, pois se o fosse era mesmo que jogar plumas ao vento.  Nem os parentes de sua mulher ainda não tinham conhecimento da decisão do casal, pois haviam de ser contrários a tão brusca separação, notadamente depois do nascimento da garota.
         Justamente no dia do aniversário da cidade, aproveitando que o prefeito estava ainda mais eufórico, o médico resolveu fazer-lhe a comunicação da transferência para Campina Grande. Aproveitava também para solicitar ao prefeito os caminhões da prefeitura para transportar o mobiliário, porquanto a viagem dos familiares seria de ônibus, pois o médico ainda não adquirira carro.
         E quando o prefeito tomou conhecimento da decisão de seu genro e afilhado, fez tudo para demovê-lo de sua saída da cidade, só se conformando quando soube que era por imposição de seu pai, que inclusive lhe transferira a propriedade que recebera de herança, com a condição dele ir ocupá-la de imediato.
         - ... Sendo assim, retiro tudo o que falei, se pronunciou o prefeito já um tanto alcoolizado.  Eu estava pensando que você estivesse descontente pelo fato do noticiário a respeito de nossa cidade.
         - A respeito, concluiu o médico, o senhor sabia que aqui em nossa cidade só há duas casa onde não têm cornos?...
         - Como não havia de saber, se sou o prefeito daqui...  E acho que só nós dois é que sabemos, pois são a minha casa e a sua.
         - Não, Sr. Prefeito.  O Sr. errou!  Uma é a minha própria casa e a outra é aquela ao lado da igreja, há anos abandonada e cujo telhado desabou por ocasião do último temporal que se abateu em nossa cidade!
         O prefeito sabia... só que não quis dizer.
         E o tenente Jeremias tinha razão, pois pressentimento de marinheiro não falha, segundo ele mesmo assegurara a seu filho.
                

         José Augusto de Oliveira


Continua...

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